DE COMO PEGAR UM VEADO À UNHA.

José Luiz P. da Costa

A desta chama-se "Deer Hunt". ou a caçada ao veado. Há muito de inglês na festa, que se realiza sob tórrido calor equatorial, no interior de Gana. Mas, pudera, ao longo de mais de um século a Costa do Ouro foi, sem qualquer dúvida, a mais bem educada das colônias de Sua Majestade, em terras da África. A "Deer Hunt", em essência, é um rito de agradecimento pela safra, manifestando-se em seu exterior, pelo menos após a chegada dos ingleses, como uma cópia das caçadas nos bosques da Inglaterra, apenas que, sem cavalos vivos. O vencedor será, ao fim, triunfalmente conduzido num cavalo de pau, que se move sobre rodas de madeira. É um belo trabalho artesanal que me recorda uma gravura antiga, no "Tesouro da Juventude", retratando o Cavalo de Tróia. A festa tem por local a cidade de Weneba, na região dos Fantis, muito próxima de El Mina e Cape Coast, escoadouros principais de escravos para as Américas. O início se dá bem, pela manhã. quando, ao som de uma corneta, os concorrentes entram mato adentro, cada qual buscando ser o primeiro a caçar o veado. Vestem-se a rigor, mais ou menos como se está acostumado a ver em filmes britânicos, em caçadas nos verdejantes campos da Inglaterra. Aliás, em termos de vestimenta à inglesa, no Gana chama logo a atenção de quem lá chega, os guardas de trânsito. Vestem-se exatamente como seus colegas britânicos, não faltando, sequer, apesar do intenso calor que lá é regra, luvas brancas, que estão sempre calçadas. A festa do "Deer Hunt", divide-se em dois momentos: o primeiro, pela manhã, quando os caçadores adentram o mato em busca da caça, sendo prestigiados por autoridades locais e convidados, que vêm de diversas cidades do país. Aliás, no Gana existe um calendário oficial de festivais, onde o "Deer Hunt" está incluído, mesmo como atração turística. O segundo momento, à tarde, tem como culminância o desfile do vencedor, montado em seu cavalo branco de madeira, precedido por um séquito de sub-chefes de comunidades vizinhas, os quais fazem por mostrar suas multicoloridas roupas e belíssimos guarda-sóis, desfilando sobre palanques e precedidos por batedores que tocam grandes tambores. A festa, em sua nuance britânica, dá-se pela manhã, quando os caçadores adentram o mato. A faceta africana se sobrepõe e se mescla com a outra, dominando todo o tempo. E aí se pode ver profundas raízes da milenar sociedade daquele Continente, aflorando uma das mais caras tradições cultivadas no Brasil: o carnaval. Weneba, como disse, fica na região dos Fantis, nas vizinhanças de El Mina e Cape Coast. Milhares de africanos daquela área, ao longo de séculos, foram trazidos para o Brasil, especialmente para a Bahia. E o carnaval que ocorre na parte da tarde, simultaneamente com o desfile do vencedor, é, sem tirar nem por, o carnaval baiano, quando praticado na sua forma mais simples e pura. Por volta das 4 horas da tarde o povo retorna às ruas, que formam a comunidade de Weneba. Viamão é a cidade que, para mim, dá uma melhor idéia, pelo seu plano urbano, de Wineba. Os populares vêm chegando ao som de muitos instrumentos, com requebros e muita malícia. Vestem-se de sujos, enfermeiros, guardas de trânsito - em suma, galhofeiramente trazer para a rua o seu quotidiano. Muitos pintam seus corpos ou apenas o rosto, especialmente com uma tintura branca. Fazem guerras de pó branco e, numa prova evidente da presença da multinacional, usam também aerosol perfumado, como lança-perfume. Da festa todos participam, não existindo assistentes à margem; todos caem na gandaia, muitos tocando os mesmos instrumentos que formam a "cozinha" de nossas escolas de samba: tambores diversos, birimbaus, pandeiros, tamborins, apitos, agogôs - é quase um cangerê. À beira das calçadas se podem encontrar os indefectíveis vendedores, com colares de todos os tipos e formas: pulseiras, máscaras, em suma, quinquilharias diversas. há também os vendedores de acará, vatapá, carurú, mungunzá e, pasmem, também, churrasquinho em pequenos espetos de bambu. E, impoluto, com ar de superioridade, desfila o vencedor, montado em seu corcel de madeira. Tal como um rei momo é o único que não participa: desfruta a glória de haver caçado um veado a unha!