ASPECTOS DA CULTURA AFRICANA

Raimundo Souza Dantas.


Raimundo Souza Dantas.
Souza Dantas, Embaixador Brasileiro em Gana.
Tive oportunidade de conversar sobre alguns aspectos da Cultura ganense com um de seus mais qualificados conhecedores, o pintor, escultor e professor Kofi Antubam, a quem fui apresentado por Vivaldo Costa Lima, na oportunidade de inauguração de uma de suas exposições artística, na cidade de Acra. Interessado em ouvi-lo, conversei a respeito com Miss Paulina Clark, assessora do presidente Nkmurah e prestimosa amiga de minha família, dizendo-me ela ter sido aluna de Antubam e continuar privando de sua amizade. Pedi-lhe para levar-me a ele. Como tinha que viajar no dia seguinte em missão política, pois também é uma das dirigentes da ala-feminina do Partido da Convenção Popular, ficou de combinar o encontro para outra oportunidade. Duas semanas depois, reapareceu-me em Tesano, onde eu morava, de volta de sua viagem, com presentes para os meus filhos e a notícia de que Kofi Antubam esperava-nos no domingo pela manhã, em sua residência no Achimota College, onde ainda leciona. Estava ele à nossa espera e mostrou-se muito contente. Não demorou a que a conversa tomasse o rumo do meu interesse. Logo abordamos temas artísticos.Exibindo-me um vaso ganense de origem Akan, destinado a ritual religioso, chamou-me a tenção para o caráter eminentemente simbólico do mesmo. Disse-lhe do meu interesse pela Cultura Africana em geral e ganense em particular, olhando-me ele de viés, para replicar em seguida:
- Eu sei disso. Já me contaram sobre as suas leituras na Universidade.
Como ainda faço, duas vezes por semana, entregava-me à leitura da vasta biblioteca sobra as artes e a cultura africana, principalmente na África do sul do Saara, Pedi-lhe que me falasse do passado e do presente da cultura ganense, assim expressando-se ele, depois de algumas considerações:
- Parece, se nos basearmos em pesquisas mais ou menos recentes, que fora das máscaras em madeira, das figuras representando deuses, dos objetos fundidos em ouro, do kenté, da música ao som do tam-tam, da poesia oral, dos provérbios, dos braceletes sagrados, dos colares, brincos e dos anéis, como também do singular, palácio do principal Chefe de Wa, ao norte do país, a Gana do Século XX não herdou nenhuma pintura arquitetural, escultura ou cerâmica, peças literárias ou musicais que se possam comparar favoravelmente às realizações de outros países. Mas isso apenas na aparência.Perguntei-lhe, então, o que deveria ou poderia ser considerado como contribuição particular de Gana à Cultura . Levantou-se e foi até um monte de pastas, escolhendo uma que trouxe consigo para a velha e gasta poltrona em que estava sentado. Enquanto examinava alguns papéis da pasta, ia dizendo que fizera recentemente, na Alemanha, palestra sobre o assunto, passando então a resumir-me as passagens mais importantes.
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Disse-me ele, com voz rouca e pausada, tudo me sendo traduzido pela boa e gentil Paulina Clark, em seu excelente francês:
- O visitante entra em contato, a todo instante, com os símbolos da cultura tradicional de nosso povo. Em todas as recepções cívicas, os Chefes e seus conselheiros, acomodam-se em um meio-círculo, simbolizando o crescente da lua, que representa a natureza acolhedora do ganense. Os "akyesmo", porta-vozes oficiais de cada sociedade tribal, empunham os seus bastões representativos de grande valor artístico, por que encimados por figuras trabalhadas em ouro ou prata. Antigamente , simbolizavam o sumário ou o espírito dos discursos reais que os chefes costumavam fazer, ou as ações que praticavam em circunstâncias especiais. Não sei se o Senhor Embaixador, por exemplo, já reparou na esplendorosa variedade das vestes dos Chefes. Simbolizam elas os seus sentimentos em determinado momento. Senão, vejamos: quando um chefe perde um parente íntimo, ele usa "kobene", um traje de cor vermelho-ocre. Há outras espécies de vermelho, que usam em sinal de prolongamento de luto. O "kenté", que traz todas as tonalidades usadas nas vestes dos potentados tribais, e que se tornou o traje nacional, e rico em simbolismo, de caráter profundamente filosófico.Quis eu, então, saber sobre religião, assim, sintetizando ele informações que eu já colhera, embora de forma a mais fragmentária que se possa imaginar:
- Antes da introdução do cristianismo ou do islamismo no país, já conhecíamos um só Deus Supremo. Como a maioria dos povos do mundo, acreditávamos que Deus era a uma só vez o Rei Criador e o Salvador. Por outro lado, que Ele fazia parte integral, inseparável e indispensável da comunhão de Seu povo. face à complexidade das relações entre o Deus único e o Seu povo, tornou-se necessária a existência e a ação de intermediários e mediadores sob a forma de sub-Deuses e sacerdotes ancestrais.Nesse particular, Kofi Antubam não foi mais além. Quisera ouvir dele, e, infelizmente assim não aconteceu, como por exemplo as estruturas e a vida política e social de Gana, no passado, como ainda no presente, eram impregnadas pela religião. Fugiu, ou não quis abordar uma particularidade das mais importantes, fundamenta mesmo, esta de que toda a arte negra é uma manifestação da vida religiosa. Kofi Antubam, como artista e tido como conhecedor profundo da cultura akan, não deve ignorar, evidentemente, que as obras de arte, produzidas tanto pelo seu povo, como por todos os demais povos negros, não o eram para ornar museus, pois tinham uma destinação e uma utilidade superiores, principalmente no que se relacionava com a escultura. Limitou-se a uma indicação pura e simples, insatisfatória, para imediatamente retomar o tema do símbolo na cultura ganense.
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Depois de afirmar que a personificação das idéias em geral e dos valores morais, em particular abre a porta à apreciação da mitologia ganense, acentuou Kofi Antubam, abandonando a pasta com os escritos da alemanha: - A divindade representando o Diabo, o grande "Sasabonsam", o guardião onipotente da sabedoria de Deus, o filósofo "Ananse", e os seus companheiros, as ninfas "Mboatia" são algumas das personagens desse grupo. Escreveu Kofi Antubam, lendo então para mim, que a cerâmica tradicional de Gana segue um desenho original, de forma oval, circular ou semi-circular, frisando que, do ponto de vista do símbolo, as formas ovais são limitadas aos vasos destinados à purificação advindo daí a forma especial dos utensílios akans, chamados "kutus", e o recipiente de vinho de palma, chamado "akotokvima". sobre as formas circulares, acentua: - São as características dos recipientes destinados às beberagens sagradas consideradas vivificantes. A forma semi-circular representa a bemaventurança, a ternura, a benignidade e tudo que torna acolhedor a seção feminina da sociedade. Os vasos desta forma são usados à mesa das tribos mais representativas. Terminamos nosso primeiro encontro nos jardins de sua casa, dizendo-me ele, com seu jeito sombrio: - A cultura de Gana é muito rica em simbolismo. A maneira como o povo dança, os seus ritmos, como também as marcas tribais cavadas nas faces , são profundamente simbólicas. A técnica usada nas exéquias depende da posição social do indivíduo morto. Há maneiras diferentes de tratar o corpo morto de uma criança e de um adulto, do homem e da mulher, por exemplo. Poder-se-ia dizer em conclusão que em Gana a Cultura significa rica expressão do simbolismo com a mais variada significação.
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Noutra oportunidade, que me foi possibilitada pelo próprio administrador do "Achimota College", Kofi Antubam forneceu-me a lista dos símbolos mais representativos da mitologia ganense, começando por uma breve explanação sobre o "stool", o trono tribal, em suas várias representações: "Na tradicional comunidade ganense "adwa", isto é, o tramborete, simboliza a alma ou o espírito que unifica a sociedade. Cada particularidade sua é muito significativa do ponto de vista simbólico. Por exemplo, a parte superior representa o caloroso acolhimento materno, o centro a presença de Deus no seio da sociedade, a base retangular os homens na sociedade. Os homens, algumas vezes, são também representados como pilares que sustentam a mãe ou a mulher. Há uma grande variedade de tamboretes, com os desenhos mais originais, com nomes como "Mbaagua", exclusivamente feminino , "Mbarangua", exclusivamente masculino, "Mfewa", exclusivamente para as crianças. Na ordem cronológica de importância, são as seguintes as mais significativas figuras simbólicas de Gana, que tornam a sua mitologia rica e variada:
1o.- Sasabonsam, chefe dos espíritos malignos, sobre o qual contam-se histórias horrípilantes. Na maioria dessas histórias aparece em seu aspecto fantástico, dotado de poderes sobrenaturais que lhe permitem fazer coisas incrivelmente maravilhosas. Algumas tribos de Gana o conhecem pelo nome de Bongam, isto é, o diabo a quem são atribuídos todos os malefícios domésticos.
2o. - Aboatia, companheiro principal de Sasabonsam, responsável por todos os desagradáveis acontecimentos na área doméstica. Seus pés são virados para trás, a fim de que não se saiba de onde vem nem para onde vai. 
3o. - Akuaba, é a representação tradicional da fertilidade, na figura de uma boneca, que as mulheres estéreis levam ao pescoço. Se acaso nasce-lhe um filho, este ganha o fetiche como seu primeiro brinquedo. Quando o marido deseja que a sua mulher tenha um filho destinado a servir à religião, ele lhe oferece uma boneca de cabeça redonda, quando deseja uma filha bela entre as mais belas a boneca deve ter a cabeça ovalada, quando deseja um belo rapaz, a cabeça da boneca será retangular. O nome do boneco modifica-se de acordo com o tipo de criança desejado: para um filho destinado à religião, chama-se Akuabatene (que simboliza o bem), para uma menina Akuababere, para um menino Akuaba-nini.
4o. - Adinkera é uma palavra Akan, que significa "dizer adeus". é também o designativo o sistema tradicional ganense de empregar os símbolos abstratos para sugerir os seus profundos sentimentos filosóficos durante o período do luto. Enquanto cantam às altas vozes os seus cantos funerais, os ganenses homens e mulheres, usam tecidos vermelhos, cinza, azuis ou negros, decorados com os símbolos Adinkera, que significam adeus aos seus mortos queridos, símbolos que assim se subdividem: Gyo Nyame, que significa "à exceção de Deus". Quando um homem alcança auge de sua grandeza e de sua glória, ele é tentado a esquecer que sempre existiu uma força ou alguém que lhe é superior. Em tais casos, os mais velhos dizem, a título de advertência: "Segui vossa consciência". E apontando o primeiro dedo da mão direita, exclama: "Gye Nyame" (A exceção de Deus); Binnbikabi, que significa "ninguém deve agredir seu vizinho". A lenda ensina que aquele que não quer ser mordido, não morde seu vizinho, e aquele que morde será mordido. É o símbolo da justiça. Segundo a concepção tradicional de Gana, representa o equilíbrio absoluto da imparcialidade; Dwanimen, que simboliza a força. Significa que aqueles que querem manter a paz devem possuir as armas para a guerra. Parece um pouco enigmático e um pouco contraditório dizer que para obter-se a paz, deve-se preparar incessantemente para a guerra; Adwos, que simboliza a paz. Quando vêm as guerras, a paz torna-se o objetivo mais desejado pelos homens. A sabedoria ganense aponta que é sempre possível viver pacificamente com os seus semelhantes. Por esse motivo, o ganense diz tranquilamente ao mundo: Adwos, isto é, "Recordai-vos do bem e preservai a paz, que fundamenta a maior esperança de nosso planeta"; Zawoho, que simboliza a liberdade, baseado num provérbio akan: "Ao obter a liberdade, o homem ganha asas que lhe permitem voar aos céus, o que lhe possibilita a chance de ver-se membro de uma comunidade superior.
5o. - Kenté, palavra akan que significa "o que se usará festivamente". Usada para designar o tecido fabricado à mão, que o ganense usa nas ocasiões festivas. Fundamentalmente decorativo, apresenta cores e formas diferentes, altamente significativas. Existem seis tipos de Kenté, a saber: Akapempen, que simboliza a honestidade e o tratamento eqüitável nas relações humanas; Pepe, simboliza a precisão e a justiça nos negócios humanas. Há um provérbio ganense inspirado nesta idéia: "O justo julgamento não leva em conta as pessoas"; Kao, nome de um inseto, considerado pela mitologia ganense a medida de vingança. Só morde aquele que o morde; Mdondowa, o eco dos tambores, o tam-tam, símbolo da ordem e do método na associação dos homens; Owo-Koforo-adobe, é o símbolo da sabedoria. A prudência - diz o ganense - modera o arrebatamento frenético e reduz os perigos de desagregação nas sociedades humanas; Abosobas, é o símbolo da ênfase e da força. Há um provérbio que exprime muito bem o conteúdo deste símbolo: "O que não se pode por em ordem com sabedoria é arrumado com pancadas".