Pequeno Roteiro na África Imensa — II

Gana, predisposta a receber brasileiros

A viabilidade comercial do mercado ganense pode ser medida pelos negócios que, de longa data, vêm sendo feitos com uns poucos clientes, como o Reino Unido, a Alemanha Federal, os Estados Unidos e o Japão, principalmente. As possibilidades para o futuro, a curto ou longo prazo, podem ser percebidas, por exemplo, ante a presença maciça de países e empresários do mundo na III Feira Internacional de Gana, da qual também o Brasil participou. Numa área especialmente construída para exposições podia-se encontrar o pavilhão gigante da China Comunista, com 4.000 metros quadrados de área coberta e espaços externos adjacentes, onde se encontrava a maquinaria pesada, especialmente para trabalhos do campo e para obras rodoviárias. No interior, desde tecidos, sapatos, aparelhos eletrônicos, até centrais telefônicas. Aliás, este mesmo pavilhão chinês já o havia encontrado na Feira Internacional de Dacar, no Senegal. E, segundo informações, os chineses estão a percorrer todas as exposições da África, montando e desmontando sua mostra de produtos. Também com estandes magníficos estavam os Estados Unidos, aparentemente mais preocupados em manter uma imagem do que vender produtos. A Holanda montou um completo sistema de irrigação em miniatura. A Inglaterra e o Japão com uma parafernália de sofisticados equipamentos eletrônicos, mostrando em processos audiovisuais suas potencialidades. Eram centenas de expositores de todo mundo e, lá entre os mais modestos, com um estande de 120m2, estava o Brasil. Poucas amostras, muitos catálogos (a maioria em português) e a vontade de conseguir uma fatia do bolo.

O Mercado.
Os dados conhecidos da economia, finanças e política ganenses são atrativos, quer para exportação simples, quer para pequenos investimentos. O país tem uma superfície de 238.537 km2, onde vive uma população de 8,5 milhões de habitantes. Cerca de 70% desta população se dedicam aos trabalhos do campo. A capital, Acra, conta com uma população de 900 mil habitantes (a chamada Grande Acra chega a 1.200 mil habitantes). O regime político instalado no país em 1972, é militar, sem partidos e sem parlamento. O chefe de Estado é o general Ignacius Acheampong. Gana participa da Comunidade Britânica de Nações (Commonwealth) e da Organização da Unidade Africana (OUA), tendo recentemente assinado com outros 14 países um pacto econômico (ECONWES) da chamada Organização Econômica dos Estados do Oeste Africano, o que significa tarifas e procedimentos especiais no trânsito de mercadorias. A economia ganense tem por suporte o cacau (445.000 toneladas); o milho (370.000); madeiras tropicais (637.000 toneladas); pesca (181.600 toneladas); rebanhos bovinos, com 800 mil cabeças e ovino e caprino, com 1.500 mil cabeças. Minerais: 724.051 onças finas de ouro; 2.600.000 quilates de diamantes, 500.000 toneladas de manganês e, em fase de implantação, exportação de bauxita.

Comércio Exterior.
As exportações de Gana atingem 570 milhões de cedis (um cedi igual a US$ 0,90) e importações da ordem de 316 milhões de dólares, tendo no último exercício, o país atingido um superávit da ordem de 140 milhões de dólares. Segundo dados menos atuais (1971) os principais clientes foram Reino Unido (86,8 milhões de cedis), Alemanha Federal (37,7 milhões de cedis), Estados Unidos (80,9 milhões de cedis) e Países Baixos (35,7 milhões de cedis). Como principais fornecedores aparecem o Reino Unido (110 milhões de cedis), Estados Unidos (66,9 milhões de cedis), Alemanha Federal (55,6 milhões de cedis) e Japão (41,2 milhões de cedis). Os principais produtos da pauta de exportação são cacau, ouro e madeiras. Nas importações aparecem em destaque bens e equipamentos para transportes, produtos químicos e alimentícios.

Concorrência.
O recanto do Brasil na feira apresentava, em lugar de destaque, um painel onde, em inglês, se podia ler: Brasil, o seu mais próximo fornecedor. Ali estavam os mapas do Brasil e África, com indicativos de distâncias marítimas entre Rio de Janeiro ou Recife e a costa oeste da África, números que eram comparados com as distâncias entre a mesma costa africana e o leste Europeu, Oriente e América do Norte. Realmente somos os vizinhos mais próximos. Mas, tal informação tinha de ser confirmada a cada momento, pois o desconhecimento a respeito do nosso país era uma constante. Somando-se a desconhecimento, no recanto do Brasil, com exceção do estande do Rio Grande do Sul, de um grupo alimentar e uma fábrica de bolas paulistas, tudo se resumia em fotografias e catálogos, na sua maioria em português, língua completamente desconhecida naquelas paragens, muito embora os primeiros navegadores que aportaram no que hoje se chama Gana tenham sido portugueses. E à medida que eram dadas informações a respeito do país, de suas fábricas de automóveis, caminhões, aviões, máquinas em geral, tudo porém esbarrava na agressividade dos europeus, americanos e japoneses que enviaram para Gana não papéis, mas amostras de seus produtos. Se o empresário estava interessado numa moto-serra (Gana tem grande consumo) bastava visitar um determinado pavilhão e lá podia serrar um tronco de árvore. No estande gaúcho estavam artigos leves, portanto com amostras disponíveis. Um fabricante de caminhões de Caicante que lá chegaram no penúltimo dia da Feira. Saindo-se do pavilhão central onde estava o recanto do Brasil, podia-se encontrar caminhões graneleiros, silos transportadores de cimento, etc.

As Lições.
Em verdade, a observação geral da feira permite concluir que é louvável o esforço brasileiro em participar de promoções como a de Gana e todas as outras que já estão programadas para este ano; porém, o exemplo dos vizinhos de estandes pode ser recolhido como uma lição preciosa: nada é feito com jeitinho. É uma guerra sem quartel e todos vão para lá preparados. Exemplo de falta de previsão pode ser dado: chegou então o Dia do Brasil. Para cada país havia o seu dia. Fazia-se uma cerimônia cívica, com hinos e discursos. Depois havia um coquetel ao qual compareciam muitos convidados. Antes do coquetel, no Dia do Brasil, houve uma sessão de cinema. O filme “Bola de Meia”, uma seqüência animada de lances de futebol, contando a história da bola de meia como formadora de pequenos craques no Brasil, desapontando a todos, não tinha sequer um golo do Pelé. O segundo filme sobre o carnaval, ao invés dos tradicionais sambistas das escolas de samba do Rio, com exímios passistas e belas mulatas, mostrava os travestis dos bailes de fantasias e o luxo dos bailes do Municipal. Isto para promover o Brasil aos africanos. E o coquetel tinha cerveja quente.

Mas há lugar.
Apesar dos pesares, a verdade é que os problemas podem ser superados e, pelo menos aparentemente, contarão mais com o interesse nos nossos preços, do que com complacência. Insinuantes, apesar das dificuldades, os brasileiros procuravam evidenciar as diferenças de preços. Lembro, por exemplo, uma multiplicação por 10. Estava na Guiné-Bissau e conversava sobre determinada maquinaria para fabricação de elementos cerâmicos. O Ministro da Indústria da Guiné informava, então, haver sido firmado contrato com um fornecedor alemão e a maquinaria já estava sendo montada. Fomos, juntos, visitar a olaria. Era igual à fabricada aqui, em São Leopoldo. Apenas, 10 vezes mais cara. Contato feito com o Banco da Habitação de Gana resultou também em atitude inesperada: o diretor-executivo do banco, após ouvir a exposição sobre determinada maquinaria, perplexo ante o preço, foi taxativo: vou mandar dois técnicos ao Brasil para verificar isto. Os técnicos, Mr. Ababio, um economista, e Mr. Apatu, um engenheiro já estiveram aqui e voltaram confirmando o que havia lá sido dito. Há, pois, lugar para nossos alimentos, nossos industrializados. Gana deseja muito adquirir know-how; máquinas e projetos industriais. E, segundo alguns de seus técnicos, o estágio em que nos encontramos em termos de tecnologia é exatamente o que eles precisam. Isto, todavia, não pode ser feito, nem por carta e muito menos com catálogos em português. licenças para importar As exportações para Gana já não podem ser feitas de forma indiscriminada, ao sabor dos desejos dos importadores do país. Enfrentando dificuldades como todos os países do chamado Terceiro Mundo, o governo ganense tem, na medida em que estimula a implantação de indústrias locais, restringido a importação de consumo, que considera como supérfluos. De outra parte, a política de industrialização do país tem permitido o surgimento no mercado de diversos itens “made in Gana”. Alumínio para artefatos de cozinha e laminados em geral, é fabricado por um grande complexo industrial ganense. Artigos de borracha, sapatos, tecidos, discos, cosméticos, alguns itens para a construção civil, conserva de vegetais e frutas, em suma, cada dia se torna maior o número de bens manufaturados no país e, por via de conseqüência estreita-se a passagem para as importações. Um detalhe importante na incipiente indústria ganense é a existência do órgão chamado “Ghana Standards Board”, que é responsável pela padronização e fixação de rígidas normas a serem seguidas pelas indústrias, assegurando aos produtos, após a liberação, um selo de qualidade. Há, entretanto, toda uma infinidade de produtos e serviços que o Brasil tem a oferecer e para os quais não existem restrições para importar, nem mesmo desnível com o seu mais tradicional fornecedor, o Reino Unido. Gana considera como item fundamental de sua economia a produção agrícola. O país não produz nem tratores nem implementos agrícolas. Portanto, imensas podem ser as possibilidades nesta área, especialmente para o Rio Grande do Sul, cuja tecnologia neste setor, especialmente dos implementos agrícolas, se adata perfeitamente às necessidades e ao estágio de desenvolvimento da agricultura ganense. O governo está, agora, tentando implantar o cultivo da soja e a experiência gaúcha fez com que, nos próximos meses, visite o Estado o presidente do Agricultural Development Bank, para conhecer a pecuária gaúcha e as nossas culturas de soja e arroz. O referido banco é o responsável pelo financiamento aos produtores ganenses, no setor agropecuário.