MORRE UM PIONEIRO
José Luiz P. da Costa

(E-1)Ronaldo Baptista, (2)José Luiz, (3)arquiteto serra-leonês,
(4)deputado Adalberto Camargo (de gravata), num vôo para Acra, Gana.
Certa feita, em Tamale, no extremo-norte de Gana, um jovem técnico do Banco da Habitação daquele país, respondendo a comentário que eu fizera sobre os riscos do mosquito transmissor da malária, situara uma posição que, mais tarde, saberia ser o pensamento dominante na zona. Dissera que o governo de Gana já deveria ter erguido um monumento na praça principal de Acra, a capital do país, em homenagem aos mosquitos transmissores, tanto de febre amarela, quanto de malária. A assertiva, aparentemente desconcertante, tem um profundo sentimento nacionalista em si. Explicou-me: não fora o mosquito seríamos uma Rodésia ou uma África do Sul. Aqui o branco europeu vinha, via a morte e, intimidado, não conseguia deitar as raízes da forma como fez no Sul da África.
Poderia ter sido o pensamento isolado de um jovem. Porém, outros dois depoimentos dariam à manifestação o peso do consenso. Foi um geólogo, professor da Universidade de Cape Coast que, de passagem, dizia: na bandeira de Gana. ao invés da estrela negra, deveria estar um mosquito. A terceira e última manifestação, mais recente, partiu de um empresário nigeriano. foi na viagem que fiz, integrando a Missão da FIERGS. Fazendo uma divagação, ele repetia o mesmo que eu já ouvira em Gana: a Nigéria tem uma dívida irresgatável para com o mosquito da malária. Em meio aos livros que costumo recolher, ao longo das viagens pela África, está um do autor ganense Agyemang, de título "Processo na Costa do Ouro". Ele inicia o capítulo primeiro, "Um esplêndido lugar para férias", dizendo: "Até poucas décadas a Costa Oeste da África era conhecida como o "Túmulo do Homem Branco". Tão diabólica era sua reputação através do mundo que se dizia ser um caminho sem volta. A morte, afirmavam, era a companhia de todos os momentos do homem branco. Ela estava na água que bebia: na comida ingerida de tal modo que, alguém cheio de vida ao amanhecer, poderia estar morto no por-do-sol". O quadro é diferente hoje, mesmo porque a febre amarela pode ser prevenida mediante vacina. A água nas cidades é tratada e, para um estrangeiro entrar em Gana, por exemplo, ou noutros países vizinhos da Costa Oeste, será necessário mostrar, no aeroporto, certificados de vacina contra varíola, febre amarela e cólera. Poderá ser aconselhado a tomar periodicamente tabletes de quinino para prevenir (não mais que prevenir) a malária. Os ganenses, os nigerianos, os marfinenses e outros africanos que conheço sofrem todos de malária, que consideram menos incômoda do que uma gripe, pois suportam, com naturalidade, seus periódicos achaques. Mas, é esta a razão do texto, no meu processo de envolvimento com a África, encontrei um brasileiro, carioca de nascimento e temperamento; paulista pelos negócios e base de operações, mas africano por adoção e por sentimento. O Ronaldo Baptista. Representante da Câmara de Comércio Afro-brasileira em países daquele continente, era, mais recentemente, diretor de uma empresa de comércio internacional, com negócios voltados exclusivamente para a África. estivemos juntos na primeira grande mostra brasileira na África, em Dacar; nos encontrávamos, amiúde, nos caminhos da Nigéria, Gana, Costa do Marfim, Senegal, etc. O Ronaldo, carioca típico, ou yurubá, ou ashanti, como gostava de ser chamado, já assimilara, pensava, a África de todo. comia e vivia como os africanos. Em qualquer lugar, efetivamente, sentia-se em casa. dava-lhe prazer imenso, entre mesuras e longas histórias, narrar sua árvore genealógica: bisneto de ashantis (do grupo Aká, de Gana) e, por seu porte alto e elegante, bisneto de congoleses, das florestas do Zaire. Omitiu, por certo, até ao próprio convencionamento, já que mulato, o ramo português. Participando juntos, recentemente, de uma festa de Safra, em Winneba, uma aldeia no interior de Gana, quando os camponeses agradeciam pelos frutos da natureza, em ritos milenares, o Ronaldo parecia em transe, dançando com eles, a repetir frenético, abafado pelo som dos atabaques, reco-recos, apitos, etc. que, enfim, ele chegara à origem do carnaval brasileiro. Após a festa, voltamos para a capital, de onde parti para o Brasil no dia seguinte. Foi o nosso derradeiro encontro. O Ronaldo Baptista, conhecido nas ruas de Acra, Dacar, Abidjan, Lagos ou qualquer outra da Costa Oeste da África, como Mister Baptista, o brasileiro, cometeu, entretanto, um erro trágico, ao lado de todos os acertos que fizeram sua trajetória a de um legítimo pioneiro na caminhada brasileira ao encontro da África: nas suas veias o sangue não era puro africano, como se convencera; portanto, suas resitências orgânicas não foram bastante para isentá-lo do tablete. A malária levou-o domingo passado, num hospital de São Paulo, enquanto uma delegação de Gana, que teria nele um grande anfitrião, partia daquela cidade já com saudades de Mister Baptista.