Introdução ao livro de Mike Omolleyê,
Fábulas Iorubanas.

COMO A LUA VEIO A EXISTIR.
Por Mike Omolleyê

Tradução: José Luiz Pereira da Costa

Depois da criação do mundo não tinha nada como lua ou estrelas. À noite todo o céu era preto.
Nesta mesma época, havia uma menina muito bonita prestes a casar com seu querido namorado.


De acordo com o costume de então, antes que uma moça fosse oferecida em casamento, uma panela de nogueira seria cozinhada todas as noites e devidida entre os parentes do futuro casal. Se mais tarde fosse descoberto que as nogueiras estavam ruins seja por oxidação ou por excesso de cozimento, ficando imprestáveis, isso significaria mau augúrio para o casal, a mostrar que o casamento seria mal sucedido e infeliz. Por isso as famílias cuidavam para que as nogueiras e suas filhas fossem boas. Ficavam, assim, atentas, perto da panela ao fogo, para garantir uma boa cozedura. O caso de Imolá não seria exceção, não fosse uma chuva pesada que os guardas que estavam de vigia ao lado da panela de nogueiras fugirem para dentro da casa, à meia-noite anterior ao dia do casamento. A chuva não parou até o amanhecer. E isso fez com que o tempo fosse tão frio que todo mundo teve um sono pesado. Todavia, isso proporcionou para a segunda mulher do pai de Imolá – uma contemporânea de sua mãe – que não estava contente com a proposta de casamento, por ciúme e maldade – a oportunidade de sair à noite, logo que as pessoas que guardavam a panela saíram, para fazer maldade. Ela tirou as cinzas do fogo, soprou sobre as brasas, jogou lenha seca e soprou várias vezes até que o fogo começou a arder fortemente contra a panela com as nogueiras, até que tudo o que estava dentro queimou. De manhã, os parentes de Imolá foram ver a panela e que desgraça!, tudo estava carbonizado. Os que haviam começado a vigia cedo mostravam-se estupefatos com o acontecimento e estavam temerosos de revelar o infeliz acontecimento aos pais de Imolá. Enfim eles se decidiram. Depois de saber o que tinha acontecido, houve uma agitação no círculo da família. Os parentes de Imolá e de seu noivo choraram amargamente. Mas, para Imolá era o princípio de uma tarefa maior. Ela parecia calma, mas o que pretendia fazer estava na sua mente. Seu noivo também não pode agüentar. Quando ouviu a notícia, começou a chorar, enquanto que as pessoas o cercavam tentando consola-lo. Nessa época, não havia nada parecido com suicídio. A casa de Deus nos céus não era muito longe da terra, e demorou só alguns minutos para que as  preces fossem atendidas. Imolá não pode cometer suicídio, mas ela estava preparada para encontrar seu Deus, cansada que ela estava dos atos de maldade dos homens. Então ela foi nos fundos da sua casa. Olhando fixamente para o céu fez a sua prece a Deus: "Se você é meu criador, envia uma corda e uma escada para me levar até você. Estou cansada de viver". Deus ouviu sua prece e enviou a corda e a escada. Sem que ninguém soubesse, subiu rapidamente na escada a caminho do paraíso. A meio caminho, um homem olhou para o céu e a viu. Ele se levantou e avisou os pais de Imolá, mas já era tarde. Quando algo assim acontecia, as pessoas cantavam uma cantiga para persuadir quem estavesse subindo ao paraíso a que mudasse de opinião. O pai de Imolá foi o primeiro a cantar. Ele gritou entre choros:
Oh Imolá
Minha filha querida,
É o teu pai,
Te pedindo
Que olhes atrás
Mudando tua decisão.

Imolá respondeu:
" Não nego que você seja meu pai; mas minha missão actual no paraíso é somente para achar boas nogueira – e como não vou voltar, por favor concorda comigo que seremos pai e filha, um do outro, numa nova encarnação". Todo mundo, inclusive a mãe de Imolá, falhou em seus apelos para persuadi-la a voltar, enquanto ia desaparecendo nas nuvens brancas contra o azul. Como a noite se aproximava, o corpo de Imolá diminuía, mas se iluminava de um branco puro, até que enfim se transformou na lua que vemos à noite, até hoje. Seu noivo também não perdeu tempo, desde que todos os esforços para trazer de volta sua namorada falharam. Ele também já estava a caminho do paraíso. Quando estava quase alcançando sua noiva, também se transformou numa grande estrela brilhante que é conhecida como a Etrela do Norte" (também chamada o Cão da Lua, na terra dos Iorubás). Desde então, ele vem fazendo caminho da sua mulher (a Lua), esperando que um dia se encontrarão e poderão se casar, sem cumprir nenhuma tradição. Mas a diferença em um dia de viagem a separar o início da escalada, faz com que ele jamais consiga alcançá-la. Assim, aguçar a mente criativa das crianças; dirigir o espírito dos jovens para o aprendizado da reflexão, esta a razão de uma boa narrativa. Ainda, uma a fábula sempre trará em si a oportunidade aos mais velhos de indagar às crianças, ao fim, o que ela trouxe de ensinamento, no sentido do que se pode ou não fazer. As histórias deste livro são pertencentes à tradição iorubá. Eram narradas normalmente para grupos, especialmente no passado, quando após um dia de árduo trabalho nos campos, todos se reuniam. Hoje em dia, com cinema, televisão, Concord e viagens à Lua, longe vão os tempos quando os pais iorubás, para desenvolver a imaginação e exemplar seus filhos, os reuniam a fim de contar essas histórias. Algumas das fábulas de animais aqui contidas desempenharam um mágico efeito em minha mente quando criança. Não esconderei o medo que senti, muitas vezes, quando tinha de caminhar por muitos quilômetros, entre a escola e a fazenda de meu pai, situada longe da cidade. Possuindo um terrível pressentimento de que tigres poderiam emergir da floresta, minhas caminhadas ali não se constituíram jamais em motivo de prazer. Eu procurei apresentar estas histórias da mesma forma como elas vêm sendo narradas ao longo do tempo, sem alterar-lhes a originalidade de qualquer forma. Haverá uma grande diferença quanto a forma, pois os jovens de antigamente ouviam as histórias contadas pelos antigos, sob a luz da lua, nas noites do após trabalho. Os jovens de hoje poderão lê-las, também à noite, mas com a luz vindo de modernas lâmpada florescentes ou coloridos bulbos.
Desejo uma feliz leitura.
Mike Omoleye

Antes da chegada dos missionários europeus e dos senhores coloniais, a antiga Nação Iorubá era um reino. A nação - escreveu o bispo Samuel Crowther - "compreendia muitas tribos, governada por seus próprios chefes e sob suas próprias leis". Os estrangeiros que primeiro chegaram à terra Iorubá, em diversos períodos, sempre atestaram que a administração se fizera em forma soberba, desde o mais baixo nível até a escala superior, nas várias comunidades que compunham o reinado. Ali florescia, em abundância, o comércio e respeitava-se a lei e a ordem. A prosperidade era um fato. Como registrou o reverendo Samuel Johnson: "O povo como um todo estava imbuído de um profundo sentimento religioso, reverente nas maneiras, demonstrando deferência para com os superiores e respeito à idade, sem ter sido ainda corrompido pela influência estrangeira; urbanidade intrínseca era parte de sua natureza". Historiadores tem-se esforçado em provar que a terra nativa dos Iorubás foi em algum lugar próximo ao Egito, antes de se movimentarem até o definitivo estabelecimento em Ile-Ife - o lendário Jardim do Éden. Não há dúvidas sobre a existência de traços característicos e emblemas que sugerem uma afinidade entre os Iorubás e aqueles povos da antiga zona do Mediterrâneo. E desde que o antigo Egito e Israel tiveram um processo de mistura de religiões, culturas e povos - não será tolice sugerir a existência de fortes traços hebraicos entre o povo Iorubá. A Bíblia ensina que Abraão penetrou no Egito. Que Moisés lá nasceu e os eventos posteriores provaram que ele adquiriu sólidos conhecimentos e sabedoria entre os Egípcios. José, o pai adotivo de Jesus, conduziu a Sagrada Família para o Egito. Por último, um símbolo que sugere haverem os Iorubás emigrado da zona do Mediterrâneo é o Opa Oranyan (bastão de Oranyan) ainda por ser descoberto e Ile-Ife e que tem significado importantíssimo na história dos Iorubás. Este escritor está convencido de que o obelisco representa a réplica Iorubá da Árvore Cabalística (Árvore da Vida) do Hebreus. A árvore foi suscintamente descrita como "A poderosamente envolvente alma de homem e do Universo". Existem três ramos saindo nas direções do centro, da esquerda e direita, com as mesmas dimensões que se tem no Opa Oranyan. Embora Johnson tenha suposto que os caracteres do Obelisco ancestral se referem à vida e ao nome de Oranyam, estudantes de Cabalística irão recordar que as características são nitidamente Hebraicas. A doutrina Cabalística, como filosofia da religião Iorubá fala de um Ser Supremo, algumas divindades e no anverso de bons espíritos. Os Iorubás também acreditam na vida do espírito após a morte e em reencarnação. Também acreditam no poder de invocar divindades intermediárias, capazes de serem porta-voz dos desejos humanos, com vistas a obtenção de favores do Ser Supremo. É muito interessante notar-se que, assim como se lê a respeito de templos sacros na Grécia, Egito e Israel, pode-se encontrá-los em meio aos Iorubás. É lastimável que os Iorubás não possuam um Livro Sagrado similar ao Alcorão ou a Bíblia. Mas pode ser dito a este respeito o mesmo que afirmou Charles Seltman com relação aos gregos, em seu livro "Os doze do Olimpo": "Os gregos não foram idólatras, pois que a imagem se encontrava no oratório a sugerir divindade, mas não para receber direta devoção; e se a imagem possuia alto valor plástico ou estético ela ali se encontrava porque os gregos tinham uma invejável sensibilidade". Assim, na religião Iorubá haviam divindades como Moremi (Maria) e Ela (Cristo), que provam a existência de estreitos laços com as religiões antigas do Egito e Israel. Os Iorubás ocupavam a posição, entre os povos negros, mesma que os ingleses tinham em relação aos outros povos europeus, durante a supremacia do Império Britânico. Amor pela independência, um sentimento de superioridade sobre todos os outros, um acendrado tino comercial, são características apontadas por Johnson, no livro História dos Iorubás, aos povos do Reinado Iorubá. Desafortunadamente, a estabilidade do Reino fazia-se abalar com freqüência por guerras, questões tribais, lutas fratricidas, o que culminou com a imposição de regras coloniais no país, isto com a utilização da força pelas armas e tratados com significado dúbio. Foi ficando, apesar de tudo, uma seqüência de histórias populares que, também não escritas, passaram de geração para geração, sem perder a originalidade. Tais histórias, como em outras raças, revelam a verdadeira fonte das tradições, das superstições e crenças que caracterizam um povo. As lendas Iorubás, têm sempre por fim criar um clima que leva a uma lição de moral, pela utilização de objetos e personalidades que são comuns na vida do povo. Mas, em essência, tem por objetivo: O respeito a Deus, divindades e tradições; O respeito aos mais velhos; Intimidar os jovens para que não façam justiça com suas próprias mãos.