I SEMANA AFRO-BRASILEIRA
CONFERÊNCIA DE ABERTURA, DIA 2 DE JUNHO DE 1979

CONFERENCISTA: Dr. José Luiz Pereira da Costa

TEMA: Participação Africana na Moderna Vida Brasileira.

O tema que me coube abordar - Participação Africana na Moderna Vida Brasileira - se confunde, em verdade, com o período que comprende a juventude e o início da maturidade dos da minha geração. Assim, oque vou contar-lhes é uma série de fatos e experiências por mim vividas - talvez uma desinteressante e desajeitada auto-biografia. Mas necessária dentro do contexto narrativo. Sou um estrante em palestras, conferências ou qualquer tipo de comunicação de uma para diversas pessoas, excetuando, é certo, a forma escrita, pois o jornalismo, no último quarto de século, tem sido parte da minha atividade profissional. Portanto, nada mais natural do que, ao invés de encontrarem a eleqüência de um tribuno, teraão a exposição de fatos alinhavados por um repórter. O CORREIO DO POVO, nos últimos cinco anos, com certa assiduidade, tem mostrado coisas encontradas em minhas viagens por este mundo, especialmente, pela África. Quem dos presentes já leu minhas reportagens ou artigos, verá, na exposição de hoje, mais um amplo trabalho jornalístico. Assim, inicio por dizer-lhes que nasci no afastado ano dee 1935. O local, e parte inicial da Rua Dr. Sebastião Leão, quase na linha divisória com a Ilhota - um quisto urbano que se iniciava logo adiante, na divisa das ruas Arlindo e José do Patrocínio, marchando em direção ao Menino Deus e a Praça Garibaldi. De minha infância, na idade pré-escolar, antes de 1943, recordo um fato e um dado: o fato, a fuga de um macaco doméstico para o mato de eucaliptos, que havia em frente à minha casa. Lembro a encantadora operação desencadeada para convencerem o pequeno animal a abandonar o mato, similar a o seu habitat nativo e voltar para a corrente que o prendia. Subornado pela tentação de bananas estratégicamente colocads, quando viu estava novamente agrilhoado. Dizem os meus irmãos que isto teria ocorrido antes da grande enchente de 1941, na qual, exatamente por uma casa, deixamos de merecer o título de flagelados. Foi antes de eu ter 6 anos. O dado: a existência, nessa mesma rua, de, pelo menos, quatro Casas de Nação, comumente chamadas de Casas de Batuque. A mais famosa pertencia a um homem cujo nome fazia minha imaginação andar à solta: João dos /caixões. Teria alguma coisa a ver com esquifes; com sacrifícios? Histórias terríveis contavam-se a respeito dessas casas, entre os meninos da rua. Ecoa, ainda hoje, fundo em minha mente, o som, nas noites de minha infância, dos tambores; assim como, registra a minha memória visual, os opulentos "despachos", deixados no cruzamento das ruas Sebastião Leão com Lima e Silva, ou com a José do Patrocínio, limitesd máximos, então, de minhas aventuras de futuro vira-mundo.
Os meus pais,seu Mário e dona Olga, eram profundamente católicos. O pai, após quase cinqüenta anos de serviço público - era chefe da Portaria da Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional - mandaram-no para casa, atingido pela aposentadoria compulsória, aos 70 anos de idade. Imbatível, foi trabalhar, após isto, graciosamente, a cuidar dos velhinhos da Sociedade São Vicente de Paula, até sua morte. A condição de católico praticante de meu pai fez chegar aos da família a palavra final quanto às Casas de Nação: locais dos quais devíamos nos manter afastados. Qualquer chance, de uma aproximação com os valores da tradiçaõ africana, ainda que já alterados no Novo Mundo, foi-se por água abaixo. É certo que, na idade em que as Casas de Nação integravam a paisagem de minha zona eu não tinha condições de, como umrepórter ou curioso, recolher informes para o futuro. Creio, entretanto, não fora orígido enfoque, em minha casa, no futuro teria sido um comportamento, pelo menos, não preconceituoso quanto às coisaS de meus ancestrais africanos.Inúmeros outros preconceitos pontilharam aqui e ali minha vida. Éramos pobres, mas não paupérrimos, a ponto de morar, por exemplo na Ilhota. Estávamos, por coincidência, ou verdade daquele tempo, na fronteira entre a classe média e os inquestionavelmente pobres: pretos e brancos.  Pois nós, os à margem da Ilhota, discriminávamos, com veemência, brancos e pretos do outro lado da linha.
É claro que, vivendo, relativamente, mais próximo do período escravista, sentia-se mais intensamente a repulsa, ou, pelo menos disfarçada aversão aos que tinham pele escura. E, quanto mais escura maior o preconceito. Assim, a tonalidade da pele era muito importante, para a medida de intensidade da pressão discriminatória. Os mais claros menos padeciam. Dentre meus irmãos eu sou o mais preto,,embora tenha o cabelo mais fino e liso, além de ter feições, digamos, mais européias. Mas, recordo, pequenas brincadeiras sempre deixavam à mostra a marca da tonalidade. Lembro muito bem. Havia na Ilhota uma menina que, por bem pretinha, tinha o apelido de Chaminé da Usina. Pois, querendo ver-me zangado, diziam, meus irmãos, que eu me iria casar com ela. Das conversas familiares ficou o registro da existência naquele tempo ou período pouco anterior ao meu nascimento, de sociedades que faziam discriminação pela tonalidade da pele. Numa mesma sociedade bailante, irmãos de tez diferente poderiam ou não participar. Assim era a famosa Sociedade Satélite, só para mulatos bem claros. Disputava com a Sociedade Prontidão, palmo a palmo, tamanha insensatez: esta recebia os mulatos um pouco mais escuros. A Floresta Aurora acolhia os bem pretos. As duas primeiras sociedades citadas, ainda hoje existem, unidas por uma fatalidade histórica: a superação de estúpidos preconceitos e a necessidade de sobrevivência. Mas, mesmo com tais fenômenos, a situação já começava a mudar, ainda que lentamente. Era melhor, muito melhor que, ao tempo de infância de meus irmãos mais velhos, quando existia, por exemplo, a Liga dos Pretos, uma entidade associativa que reunia times de futebol integrados apenas por afro-brasileiros.
Este o universo em meio ao qual fui passando minha infância. Meus amigos, eram todos brasileiros de pele clara, eis que, já aquele tempo, pelo menos a família daquele que eu considerava como o meu "melhor amigo", tinha evidentes marcas de sangue africano. Não colocariam, se dizia jocosamente, o quadro com o retrato do avô na parede da varanda. Jogávamos futebol na Lima e Silva e, comumente, andávamos de patinete de rolimã na João Pessoa, então quase sem automóveis. Comportávamo-nos, afora algumas agressões esporádicas, como um time de irmãos. E, dentre o que chamo de agressões esporádicas coloco meu pessoal martírio anual: 13 de Maio. Imperdoavelmente, naquela data, eu virava chacota entre os meus companheiros de classe. Brincavam pesadamente, para ferir, fazendo recordar a condição de inferioridade dos negros. Doia-me, profundamente, naquele tempo, a verdadeira "capatis deminutio" de ter a pele escura. Assim, ao longo de minha infância e adolescência, nada, mas nada podia levar-me a ter orgulho de minha pele escura. Ninguém, fosse de que lado fosse, era capaz de dizer-me coisas que fizessem eu ter orgulho de meu lado africano.  Ao contrário, como uma verdadeira tábua de salvação, aparecia meu avô, um deles, seu Joaquim, pai de minha mãe. Era português, nascido, portanto, na Península Ibérica - vejam, a Península Ibérica, por séculos dominada por homens de pele escura; mas isto eu viria a saber muito mais tarde. Pois seu Joaquim, que morreu antes de eu haver nascido, o conhecia por uma velha fotografia familiar, onde ele posava, orgulhoso, à frente do balcão de seu estabelecimento de secos e molhados, na Rua da Cadeia, ostentando seus negros bigodes. Diziam meus amigos: Imaginem, o José Luiz nem parece negro. Tem lábios finos, cabelos lisos, é inteligente...E, lá vinha eu com meu estandarte: é da parte de meu avô, ele era português! Hoje, quando sei que corre em minhas veias um inextrincável fluxo de sangue, faz-me rir a seguinte constatação: meu tipo físico poderá ter algo a ver com meu avô lusitano; mas, a crer no adágio "vox populi, vox Dei", minha aparência se aproximaria mais de um ancestral andarilho, como eu, que, por certo, numa aventura mal sucedida, foi capturado muito longe de casa e trazido para o Brasil como escravo. Senão vejam: em qualquer lugar do mundo, especialmente na África, pessoas curiosas não perguntam de onde venho; afirmam, com segurança, que sou etíope. No hotel que usava me hospedar em Acra, capital de Gana, também se hospeda a tripulação de Etiopia Airlines. Inúmeras vezes fui confundido com tripulantes ou passageiros etíopes, de estatura mediana,cabelos crespos-lisos, lábios finos - assim como eu sou. Esse meu ancestral teria saído do Leste Africano, no Oceano Índico e veio parar aqui, no Leste brasileiro. Dentro dos limites da presente exposição e, mais, considerando que tenho ainda alguma coisa para dizer-lhes, posso concluir que, até então, até aquela idade, nada havia encontrado ou me fora mostrado, que me fizesse ter orgulho em ser descendente, também, de africanos. A leitura escolar, especialmente em História, apresentava heróis que nada tinham de pele escura. Os vultos incluídos no currículo escolar eram todos, na História Geral, muito longe das imagens dos reis do impérios Sonique, Mandinga, Sererer, Susu, Songai, Açã ou Iorubá. Nunca, em todas as minhas leituras, ouvira nomes como estes. Ouvi histórias de grandes guerreiros da Idade Média ou da Moderna; mas nunca ouvira uma palavra sequer a respeito dos importantes guerreiros Sumanguru ou Susu, este fundador do Império do Mali. Gostaria que ficasse claro, desconhecedor de tudo a respeito do lado glorioso de minha ascendência africana; mas a sofrer na carne todas as dificuldades apostas a nós e, sobretudo, a viver num mundo onde todos os valores bons eram alvos - nada tinha porque vangloriar-me, ou mesmo, lá no fundo, ter u ardor cívico pelo meu lado africano. Entre meus colegas de ginásio - a idade da afirmação do jovem - inúmeros eram os descendentes, mesmo de fancaria, de grandes heróis das revoluções pátrias. Mas o que poderia dizer eu? Que era descendente de Marcílio dias? Ou quem sabe, dentro do contexto de então, calharia melhor, de João Cândido, o cognominado Almirante Negro, o homem que conseguiu abolir com a chibata na Armada? Ou de José do Patrocínio? Quem sabe de Afonso Pena? Nada, senhores, nada porque se entusiasmar. Muito mais tarde eu viria a compreender melhor a posição de inúmeros mulatos, de pele clara, que à primeira chance, mudaram de lado. Fizeram-no por uma questão de inteligência, porque não eram masoquistas. Abençoados pela benece genética da diminuição dos pigmentos, vivendo num tipo de sociedade cuja discriminação ao negro se apoiava, praticamente, apenas nisto - aceitaram, ou até forçaram, sua condição de brasileiros claros. Por que ficar a padecer uma série de discriminações, se tinham pele clara e, comumente, estatus econômico. Conheci vários mulatos - como diriam os jovens de hoje, já numa boa. Advogados, médicos de conceito, titulares de cartório, consultores de bancos, etc. E, quase todos, casados com mulheres brancas, segundo o consenso geral. Minha idade permitiu-me conhecê-los a caminho da maturidade e, por isto ver seus filhos, os da minha geração, já bem de vida, em alto nível social, completamente despreocupados, tenho certeza, de indagações a respeito da tonalidade da pele. Venceram, primeiro, a barreira econômica e, com isto, aliado a condição de mulatos claros, entraram sem problemas no mundo brasileiro claro. E, como sou dos que creditam a discriminação, seja de que tipo, mais à ignorância do que a qualquer convicção científica mais sólida - entendo que, no meio em que vivem, por sobre a massa ignara, que discrimina em bailes do interior ou subúrbios de Porto alegre, não passa pela cabeça ocupada das pessoas que ali estão, indagações de ordem ancestral, buscando encontrar no sombreado da pele do fulano uma origem africana. Pois Aos 15 anos de idade, mais por teimosia, fui trabalhar. Estudaria à noite e, durante o dia, seria um burocrata em início de carreira. A independência de trabalhar, ter o meu próprio rendimento, a liberdade de buscar novos horizontes, de conhecer gente, com elas conviver, pessoas todas mais velhas, com suas próprias experiências de ida, constituia-se numa importante escola. Na minha repartição o setor mais forte era o de Engenharia. Expressivo contingente dos funcionários eram estudantes de engenharia, que ali estavam para adquirir prática e, também, suportar os encargos universitários. Fui respirando, no dia a dia dos anos que por lá passei, uma atmosfera onde o atingir altos objetivos era meta comum. Todos, jovens convictos de dias melhores no futuro, pelo esforço do presente. tive a oportunidade de, ainda lá. ir vendo ex-colegas de repartição galgar novos degraus lá fora. Os conhecera como simples desenhistas, para os quais eu ia, na hora do lanche, buscar sanduíches e refrigerantes. Mas, a pouca diferença de idade fazia-nos amigos, pelo menos nas horas de trabalho. E, estes amigos, como que de repente, tornavam-se engenheiros e iam destacando-se na vida. Também a independência de trabalhar levou-me a outro passo que considero de alta importância, dentro de minha vida: associei-me ao Clube Náutico Marcílio Dias. Aí, o ambiente era de jovens. E, mais do que um ambiente de jovens, era um local, assim como em minha repartição, onde tínhamos objetivos a alcançar e, todo o tempo, debatíamos sobre eles. era a luta permanente contra as discriminações, então, verdadeiramente um problema.
Não vou esquecer, por exemplo, a dramática luta que mantivemos contra a Federação Gaúcha de Remo, que teimava em não aceitar-nos como membro. Tínhamos barcos - doados por outros clubes náuticos - com os quais praticávamos no Guaíba. Tínhamos bons remadores, até diria, excelentes. Mas na hora de entrar na raia para disputar com o Gaúcho, União, GPA, não podíamos. E, destes tempos um dado interessante: haviam duas pessoas que defendiam com ardor a nossa participação nos torneios de remo.  Um era o jornalista Luiz Palhares de Mello - sem que ele sequer soubesse de minha existência - mas, pai de um grande amigo de meus tempos de infância, responsável, mesmo, como passivo de uma guerra de pedras, por uma marca que ficou indelével em minha testa. O outro, um cidadão, mulato claro, sócio tanto do Gaúcho, quanto do Marcílio dias. Que discriminação idiota!
Este ambiente de lutas; de afirmação de valores próprios, dentro da comunidade, foi-me tornando, naturalmente, um participante ativo. A tendência que me levaria ao jornalismo ali se manifestara, ao fundar o jornalzinho EM DIA. Mais tarde, viria a ser presidente do clube, na administração em que construímos a atual sede em alvenaria. Mas, lá no fundo, mesmo ao longo de minha caminhada como marciliense de todas as horas, lutando por melhorar os padrões econômicos e culturais de nossos associados, apesar disto lá no fundo persistia a dúvida; aquela coisinha atávica, a me perguntar: mas os meus ancestrais africanos, nada fizeram? Curioso do idioma Inglês, naquele tempo, deixou-me feliz haver caído em minhas mãos, numa visita ao Renascença Clube, no rio de Janeiro, um exemplar da revista americana, ditada em Chicago, denominada EBONY - Ébano. Ao folhear, pela primeira vez, aquela revista, graficamente muito superior a O CRUZEIRO, então a grande revista brasileira, a maior de todas - foi como que um choque elétrico. Como poderia haver um mundo tão sofisticado, apenas habitado por negros e mulatos? Tornei-me, mais adiante, assinante da revista. Meu horizonte foi-se abrindo, numa nova perspectiva. Passei a admirar aquele povo forte e orgulhoso, que lutava contra tudo e contra todos, buscando, com todo o ímpeto, o lugar a que tinha direito, na próspera sociedade norte-americana. Eu teria a ventura, em 1971, portanto bem mais adiante, atendendo a convite do Departamento de Estado, dos Estados Unidos da América - com inexcedível honra, formulado pelo cônsul Robert Lane, o primeiro cônsul negro que os Estados Unidos mandou para o Rio Grande do Sul - de viver numa comunidade que, ainda exclusivamente negra, já sentia os efeitos da vitória sobre rígidos preconceitos. Conheci, assim, bem de perto, como um deles, os problemas dos negros americanos, quando na Carolina do Norte. Com grande expectativa, naquele tempo, passava a esperar a chegada dos números de EBONY, que eram lidas com grande sofreguidão e que passavam de mãos e mãos, entre alguns amigos. Eram páginas e mais páginas de farto material colorido. Chamava-me especial atenção a publicação, em cada número, da coluna "Our People" (Nosso Povo), uma galeria de retratos e informações sobre empresários, engenheiros, advogados, médicos, militares e diplomatas - negros que haviam vencido na dura luta americana. Dava-me grande prazer a beleza plástica das jovens americanas ou de famílias de posses, que eram mostradas nas páginas de EBONY. Todos apareciam impecáveis: belas mulatas, com longos cabelos alisados; pele clara, vestimenta impecável. era o modelo branco a ser copiado com o máximo de fidelidade. E isto, naturalmente, dava prazer aos americanos, preocupados, naquele tempo, em se integrarem na comunidade americana branca; portanto, apresentavam-se o mias parecido possível com o modelo. É certo que estas divagações conclusivas são de mais tarde. Então, eu achava tudo muito lindo e perfeito. era um mundo em cores, tal como os filmes musicais coloridos da Metro, que já apresentavam, como receita internacional de tipo humano, as belezas mulatas de Doroty Dandridge e Lena Horne. Estávamos já na segunda metade da década de 50. Pois de repente, senão que de repente, um novo tipo de informação começava a aparecer em EBONY, e isto chamava-me a atenção. Registrei três notas, que transcrevo a seguir: Encontram-se marcadas para 17 de junho, era 1956, eleições parlamentares na Costa do Ouro. O líder do movimento de independência, Francis Nkrumah, membro do Partido da Convenção do povo, lançou um manifesto à Nação, conclamado o povo a prestigiar as eleições.
O Governador da Costa do Ouro, um inglês, informou oficialmente ao Primeiro Ministro, francis Nkrumah que o Reino Unido havia garantido assegurar a inde- pendência da Costa do Ouro, após sete longos anos de lutas e sacrifícios. Em despacho do Secretariado Britânico de Colônias foi comunicado ao governo da Costa do Ouro que, face ao desejo expresso de Sua Majestade, seria apresentado um projeto-de-lei concedendo a independência à Costa do Ouro e dependendo da aprovação do Parlamento, pretende o governo de Sua Majestade concordar com o desejo de rebatizar o país com o nome de Gana, quando da final independência Estava a findar 1956 e ia nascendo 1957, o ano da independência do primeiro país da África negra.; do primeiro país ao sul do Saara. Nascia Gana. A seqüência dos fatos que comentava antes e que levaram minha imaginação para um canto diverso do meu dia-a-dia - a África. trouxeram-me à mente, um momento de minha infância: Estava no chalé de no. 44, da Rua Dr. Sebastião Leão, numa pacata noite. Meu pai era um típico chefe-de-família africano - isto eu viria a constatar, cheio de emoção, mais tarde, após sua morte , quando de minha primeira viagem à África. Pois como dizia: meu pai um típico chefe-de-família africano, não era muito dado a conversas, especialmente com os filhos mais novos, como eu, o penúltimo. A seu modo, fazia-se amar, pelo respeito, pela bondade, pela justiça de suas decisões, sempre de última instância. Pois nessa noite ele interrompeu a leitura do jornal, a FOLHA DA TARDE, sua companheira de todos os fins de dia e comento, estou, mais para si mesmo, e com uma satisfação íntima, que me faz recordar o tom diferente como se expressou. comentou que, finalmente, a Costa do Ouro tinha um líder e que ele, após haver estudado nos estados Unidos, preparava-se para voltar à sua terra de origem e comandar a luta pela independência. O conhecimento, hoje, de muitos detalhes de toda a luta pela independência da costa do Ouro, bem como a vida de Nkrumah (tenho, em manuscrito, a tradução de uma de suas biografias, que fiz nas horas vagas), faz-me localizar, com certa precisão, a manifestação de meu pai nos idos de 1945, quando eu tinha 10 anos de idade. Aproveitei o momento especialíssimo para saciar minha curiosidade infantil. Perguntei-lhe o que era a Costa do Ouro. Recordo, ele deitou o jornal sobre a mesa e dirigiu-se para a parte da cristaleira, recanto onde guardava seus parcos livros e papéis. Embora parcos, ali era o meu reduto predileto, ao qual tinha acesso, sempre que ele não estava em casa. retirou um dos três volumes que possuíamos do "Tesouro da Juventude" e deitando-o sobre a mesa, abriu onde havia um mapa da África (talvez um mapa mundi). fica aqui, apontou com o dedo, a Costa do Ouro. Aqui. subiu com o indicador, fica a Costa do Marfim. deve ter falado mais a respeito daquele mundo, mas minha imaginação não deve ter-se atido às palavras que proferia, mas ao que representava para mim, então, costa-de-ouro, ou costa-de-marfim. Marfim lembrava elefantes. Ouro, minas e expedições perdidas em filmes do Apolo, Garibáldi oi Castelo. E, na mesma cristaleira, atrás dos vidros, lá estava um pequeno bule de chá, um elefante de porcelana, com um menino em seu dorso. era mais um hindu do que um africano. então, o elefante de porcelana passou a ser uma espécie de símbolo da África, mas como a via em minha infância. O que, estou certo, não poderia imaginar, é que o elefante de porcelana. ainda hoje na casa de minha irmã. como lembrança de nossa mãe, viria a ser quase igual ao símbolo da Costa do Ouro, que encontrei num antigo aparelho eletrônico, do tempo colonial, num hotel em Acra, capital de Gana. E a década de 50 passou, mas deixando sulcos profundos em meu caráter, em minha personalidade, nos rumos que haveria de seguir. Com o início da década de 60 eu me havia transformado do burocrata num inquiete jornalista. De estudante secundário, via-me sentado na tradicional Faculdade de Direito da URGS, em Porto Alegre, a conviver com brilhantes colegas e discípulo de grandes nomes como Ajadil de Lemos, Ney Messias, Brochado da Rocha, Darcy Azambuja, Armando Câmara e outros, vivos e mortos. E lá estava eu a travar intermináveis torneios de polêmica, com tantos candidatos à notoriedade. Hoje, passados quase 20 anos, muitos já começam a alcançar a notoriedade. Nessa época o jornalista e o acadêmico somavam suas inquietudes, tanto nos corredores da Faculdade, quanto na redação do jornal. Mas este dava-me mais munições a respeito da África. Naturalmente que, com o chegar da década de 60, as informações sobre a África eram mais amplas; afinal, Gana já era uma nação independente e o mesmo ocorria com a Guiné (Conacri); ao mesmo tempo em que a Nigéria, O Quênia, o Congo e toda a África francesa, reclamavam ruidosamente sua independência. Assim, no dia-dia do jornal, nomes como Léopold Senghor, Jomo Keniata, Patrice Lumumba, Houphouet Boigny ou Asmed Sekuture passaram a integrar o meu cotidiano. As coisas haviam mudado tanto que, minha companheira, a revista EBONY, não mais tinha modelos embranquecidos. começava a surgir um novo padrão de beleza, que se definia com a profundamente orgulhosa expressão: "Black is beautiful" - Negro é belo, dentro do contexto geral do "Black Power" - Poder Negro, vindo da saga libertária africana.
Estava em 1964 quando chegou-me às mãos um número de EBONY, com uma ampla reportagem cujo título por si mesmo boliu com os meus nervos: "AFRICA'S GOLDEN PAST" - o passado de Ouro da África. E, dentro daquele excepcional padrão gráfico de EBONY, via-se um poderoso guerreiro, de arco e flexa em punho, cavalgando um belo espécime eqüino, numa luta titânica contra outros guerreiros. A gravura ocupava quase duas páginas e o texto explicava, no início, as razões que haviam levado a editoria de EBONY a contratar dois professores, um historiador e um artista plástico, William Leo Hansburry e Harper Johnson. Após pesquisas exaustivas, eles iniciariam a desenvolver um vasto projeto, cujo objetivo maior era mostrar, exatamente, a participação da África na história de nosso planeta. Eles já haviam recolhido bom material, afinal trabalhos de historiadores africanos já começavam a aparecer, timidamente, nos países recém libertos. E, a comunidade negra americana estava pronta para consumir, com seu alto poder aquisitivo, tudo o que fosse publicado e que lhes respondesse aquela mesma pergunta que sempre me angustiava: afinal, nossos ancestrais africanos nada fizeram? Lamentavelmente, após três publicações o trabalho foi suspenso, com a morte do professor Hansburry. Assim, foi sumamente empolgante, por minha total ignorância aos valores da arte e cultura africanos, saber que: Píndaro, poeta da antiguidade, afirmou: os líbios acreditavam que Jarbas, o mais antigo dos homens, brotou no coração da Líbia, alimentando-se de fruto de carvalho doce. Os egípcios, em tempo imemoriais, por seu turno, afirmavam que o homem foi moldado com a argila úmida, retirada do Nilo. De outros pontos da África, como a Etiópia, Tanganica (Tanzânia, hoje), Quênia, rodésia ou Libéria, chegam informações mitológicas segundo as quais cada um desses países teria sido o Jardim do Éden. Porém, mais comove os africanos, no projeto de explicar a origem da humanidade, uma versão grega do pensamento dos cuchitas (região da Etiópia): Diodorus Siculus visitou o Egito durante o reinado de Ptolomeu auletes - o pai, tocador de flauta, de Cleópatra.  No encontro conversaram sobre o povo cuchita. Ptolomeu informou-lhe que muitos sacerdotes, embaixadores e outros homens do Reino de Cuche estiveram em visita ao Egito, numa ou outra missão. Num grande trabalho de pesquisa, do qual surgiu a Biblioteca Histórica, Diodorus recolheu narrativas dos encontros com clérigos de ébano e diplomatas dos reinos do sul. Diz, então, que os cuchitas eram de opinião que o seu país não apenas era o local de seu nascimento, senão que o berço de toda a humanidade. A versão mítica dos cuchitas era assim narrada: no começo do mundo o Egito esteve submerso, assim permanecendo por várias idades. Mais tarde viria a emergir, tornando-se um enorme pântano, evoluindo a seguir para um terreno seco. No Estágio seguinte, um príncipe e uma princesa cuchitas ambos bem versados nas artes civilizadas, imigraram, com muitos parentes, para a região já seca do Egito. No deslocar-se pelas terras foram ensinando, aos povos do norte, os elementos fundamentais da vida civilizada. Fora desses colonos cuchitas que os egípcios aprenderam a fazer estátuas; às práticas escravistas; dar aos mortos sepultura; adorar a Deus e aos reis como deuses. Na mesma versão é oferecida às figuras de Iris e Osiris a seguinte origem: como expressão da gratidão o príncipe e a princesa cuchitas, responsáveis pelo legado cultural e artístico que fora transmitido aos egípcios, receberam, destes, a condição de divindade, deferidos ao príncipe e a princesa africanos, chamando-os de Iris e Osiris. E ao filho do casal, Horus. Muito antes de Diodorus, os cuchitas foram internacionalmente renomados por seus padrões de cultura, humanidade e ar majestoso, bem como destreza no manejo das armas. Homero os conheceu, assim como Heródoto, como uma raça irrepreensível. eram os mais altos, os mais elegantes, os mais justos dos homens. Plínio, o velho, refletia a tradição antiga, ao afirmar que a Etiópia sudânica, ou o reino cuchita se constituia de um povo famoso e poderoso, tanto quanto Tróia e, segundo Adrianus de Miletus e Quitius de Smirna, nenhum deles ostentou maior valor e humanidade , defesa da Ilha de Príamo, do que Menon, príncipe da Etiópia e sua inumerável horda de guerreiros. Com referência ao poderio militar dos cuchitas antigos, encontra-se no livro de Isaías (18:2) que houve homens de estatura sumamente alta... um povo temível desde o início em diante. Quando do renascimento das ciências clássicas na Europa, já em tempos modernos, a opinião dos antigos a respeito dos poderosos reinos da região etíope-sudânica encontrou bons e respeitáveis advogados. Um dos mais conhecidos e influentes foi o filósofo francês, Francois de Chassembeuf, conhecido como Conde de Volney, cujo trabalho, publicado em 1791, As Ruínas do Império, informava que Na terra de Diodorus, um povo agora esquecido, descobriu, enquanto os outros ainda eram bárbaros, elementos das artes e das ciências. Uma raça de homens ainda hoje discriminada pela cor de sua pele por seu cabelo crespo, que estabeleceu as leis das ciências naturais, reguladoras, mesmo agora, da cultura do gênero humano em todo o universo. Em 1730, Charles Rollins, autor erudito de História Antiga, atribuiu o estabelecimento da primeira civilização egípcia a membros da raça negra. Em 1790, no ano anterior ao aparecimento do trabalho de Volney, James Bruce, célebre africanista, publicou as condições geográficas e processos históricos, os quais deram origem à civilização e aos estágios mais anteriores de seu desenvolvimento na Etiópia, Cuche e terras vizinhas da África, ao invés de outros locais da Terra. Em 1828 foi conhecida a manografia de Frederic Caillaud onde expõe evidências arqueológicas que revelam importantes materiais históricos, que indicavam elementos básicos das civilizações antigas. E tais dados conduziam a um princípio: cuchitas, espalhados pelas regiões da Etiópia e sul da Núbia. Enquanto as conclusões de Caillaud estavam ainda frescas na mente do público, seu jovem e brilhante contemporâneo, Jean Francois Champoleon, também recolheu profundas impressões sobre o Egito, as quais não teve tempo de passar para o papel, mas as teria transmitido para amigos: O Egito não tem povos de origem asiática; formou-se, o seu povo, de uma raça africana, cujos antepassados haviam chegado da Etiópia, sudão ou da Núbia. Idéias preconcebidas de que a África se constituiu sempre num deserto cultural, sem contribuição expressiva para o desenvolvimento universal, estão a morrer lentamente. Mesmo face às descobertas arqueológicas de importância, ante narrativas de peso, obras de arte de valor inelutável, historiadores preferem ainda dar curso à concepções antiquadas, segundo as quais aquele continente apresenta-se como uma página em branco na história de nosso mundo. Os professores William Leo Hansburry e Harper Johnson, pesquisando as culturas africanas da Idade Antiga, assinalam à margem: Chamados de selvagens, os africanos não registram em seus anais atos de expressão tão bárbara como o massacre de judeus, nas câmaras de gás do III Reich, chamados de pagãos, seus valores espirituais são mais marcantes; criaturas que, em qualquer canto do Continente têm como fonte inspiradora de suas vidas um ente superior; rotulados de primitivos, são, sem dúvidas, fonte inspiradora de denominador comum da cultura ocidental moderna. Somente o preconceito fez afastar dos conhecimentos modernos de história universal a presença pujante de impérios como os de Gana, Mali, Congo, Sudão, etiópia e Songai, em tempos que as cidades de Timboctu e Goa se constituiam, verdadeiramente, em centros internacionais de cultura: trocavam-se embaixadores e, na comparação, os africanos superavam aos europeus. De um relatório do mesmo professor, William Leo Hansburry, lê-se: É interessante observar que , nos idos de 1492, quando Granada caiu e Colombo descobria a América, ainda havia africanos em postos de mando na Espanha. Ao longo de 781 anos, entre 711 e 1492, os africanos casaram com espanhóis e converteram muitos deles à fé islâmica. Durante o período da dominação da Espanha, africanos e árabes, da mesma forma que contribuíram para o progresso desenvolvimento da Península Ibérica, conseguiram erguer uma civilização sem rival dentre as contemporâneas. Quando os espanhóis reconquistaram sua terra, formou-se um processo de reversão, assim descrito por Stanley Lane Poole, na sua obra Os Mouros na Espanha: "E os espanhóis não tiveram condições de compreender que estavam matando o seu ganso de ouro. Por séculos a Espanha fora o centro da civilização, o repositório das ciências e das artes, reduto de toda a forma e requinte. Nenhum país europeu conheceu tanta expressão e encantamento quanto a Espanha, durante a dominação dos mouros. Estes foram banidos e, por algum tempo, os espanhóis brilharam como a lua: com luz empretada. Depois, fez-se um longo eclipse". Dentre os mais antigos estados africanos, reduto de fama e fortuna, destacava-se o Império de Gana, de onde o atual estado soberano tirou o nome, numa homenagem de seu líder libertário, Kwame Nkrumah, ao passado glorioso dos africanos. Seu território situava-se afastado cerca de 500 quilômetros na direção de Bamaco, a capital do Mali, em meio a um imenso deserto, sem habitantes permanentes. Muitos bem intencionados, mas mal informados intérpretes do presente e passado africano, insistem em duvidar da existência do Império de Gana, porem, descobertas arqueológicas de expressão se constituem em suporte irrefutável. Corria o ano de 1912 e um oficial de distrito francês, Bnel de Mezieres percorreu longamente os territórios do alto Senegal e Níger, local onde Delafosse demarcou como o coração de Gana: era a cidade de Cumbi, capital do Império, até então desconhecida. Viu-se face às ruínas de algo que teria sido uma pujante cidade. Seu trabalho viera a ser posteriormente confirmado: ali estivera, realmente, Cumbi-Salé, capital do então poderoso Império de Gana, cuja história como estado independente pode ser assinalada desde o V século da era cristã, até cerca de 1203. Comentando sua visita, em 1914, a Cumbi, Bonel escreve: mas sobremodo imponentes. Havia evidência de trabalhos em ferro, numa colina. Podia-se ver ruínas de casas em forma de vila, na direção leste-oeste das ruínas. W. E. Ward, em Histórias da Costa do Ouro, escreve: "A civilização de Gana e outros impérios foram maiores do que as existentes na Europa, na mesma época. Eles construíram explêndidos edifícios, tinham um código ético e legal, escreviam poemas e história. Conheciam a medicina, possuiam universidades. Operavam com bancos e toda a sorte de empreendimentos comerciais. Tinham um bom serviço postal e conheciam certas normas sanitárias. Seus homens de ciência observavam cometas e eclipses, bem como movimentos sísmicos, discutindo suas causas, a um tempo em que, na Europa, tais fenômenos eram tidos como manifestações da ira divina". Esta a situação de Gana, antes de ser atacado pelos poderosos e fanáticos guerreiros islâmicos, o Almorávidas. Em 1042 tais guerreiros atacaram alguns dos mais afastados distritos, numa operação que se alongou por 18 anos. Para preservar sua liberdade, Gana espalhou 200.000 homens, sendo que, destes um total de 40.000 eram arqueiros, ao longo dos campos, num desesperado esforço para a salvaguarda do império. Em 1076 o vento que varreu Gana era de tamanho ímpeto que provocou a cisão do Império. Já é amplamente aceita e tese, segundo a qual a Nigéria possui uma população milenar. Nos últimos 40 anos diversas evidências vieram a dar força ao argumento: vigorosas marcas de uma cultura pre-histórica foram encontradas em escavações realizadas ao norte da Nigéria. Eram expressivos trabalhos em terracota. Em 1944 a descoberta de uma bela gema fez conexão com encontros isolados, ocorridos em torno de 1936, dentre os quais se destacam um pequeno macaco em terracota. Este pequeno troféu artístico fez emergir a cultura de Nok, permitindo um dos mais revolucionários encontros da moderna arqueologia. Não muito tempo após, quando do surgimento das primeiras peça, os estudiosos acreditavam que elas datavam de , pelo menos, 2. 000 anos AC. Tais dados levaram à presunção de que a arte de Nok teria influenciado, seriamente, a cultura de Ife e Benin, erradicando, por seu turno, falsos conceitos de que Ife, Benin e Igbo, bem como outras manifestações artísticas tradicionais teriam tido origem extra-africana, bem como garantindo aos negros africanos a produção de uma arte naturalista e impressionista. Por motivo desse peculiaridade foi fácil pensar-se numa arte separada entre Ife e Benin, do resto da África, buscando, por conseqüência, origem não africana para o que lá fora produzido. É geralmente bem aceita, como teoria para explicar a arte daqueles povos, a migração que teria ocorrido, sob a liderança de um africano chamado Kisra, com destino à África Ocidental. O resultado dessa corrente migratória teria sido o estabelecimento em Ife, de uma dinastia. Muitas tribus, inclusive a Iorubá, são tradicionalmemnte ligadas a essa corrente migratória, que teria ocorrido entre os séculos VI e VIII da era Cristã.

CHEGAM OS EUROPEUS.
o primeiro contato com a cultura de Benin foi feita pelos portugueses, em 1473. E estes parecem ter conseguido um bom relacionamento com o Rei de Benin. Instalaram um posto de comércio e seus missionários também eram recebidos pelo rei Seus soldados chegaram a servir no exército real. O relacionamento se prolongou até 1660, embora a partir de 1540 começasse a haver um declínio. desde então, os holandeses passaram a ser os negociantes com quem Benin transacionava. alternadamente participaram do relacionamento, portugueses, holandeses, franceses e ingleses. O relacionamento com os ingleses e franceses, por fim, sobrepujou aos demais. E, na medida em que o comércio era mais importante, os valores culturais foram-se apagando, para renascer, somente após o término do colonialismo, com a independência das nações africanas, e o surgimento de novos estados soberanos, nem sempre correspondendo estado e nação. Da pesquisa de historiadores africanos e americanos, nasceu a parte que aqui concluo desta conferência e que foi transcrita do livro "África", da Comissão de Economia e Desenvolvimento da Assembléia Legislativa, também nesta parte por mim elaborado. Confesso-lhes que, se tivesse tomado conhecimento de todos estes fatos, quando de minha idade escolar, por certo seria menos patriota do que reputo ser - mas teria, pelo menos, um profundo respeito por meus ancestrais africanos, dos quais somente pude ter, na minha experiência pessoal, semelhante sentimento, por conta própria e já homem feito. E, no contexto geral, meus colegas também desinformados como eu, na hipótese, teriam sido mais benevolentes.  Sei que diversos escritores brasileiros, como Gilberto Freyre, não pouparam esforços para mostrar a importante participação do negro, trazido como escravo, ou seus descendentes, na construção da civilização brasileira. Porém, livros de sociologia começam a tornar-se interessantes depois da fase colegial, quando as indagações que o estudo e o ambiente da Universidade oportunizam, levam os jovens a tais leituras. Recordo que li Gilberto Freyre, Arthur Ramos, Florestan Fernandes, Nina Rodrigues - somente quando já na Universidade ou depois. Acredito que o surgimento de um maior interesse sobre este tipo de informação, a ponto de torná-la mais ampla, somente se pôde dar após o término do período colonialista. Antes de 1957, nações poderosas como a Inglaterra, França. Alemanha, bélgica, Itália e Portugal, todas com colônias na África, não tinham interesse algum em valorizar o lado humano dos povos da África. ao contrário, deveriam mostrá-los como incapazes e subalternos, para que pudessem continuar a tutelá-los, e em tutelando-os continuar explorando suas riquezas e seu trabalho. Portanto, como alguém iria encontrar em livros como o "Tesouro da Juventude", da editora Jackson, informações sobre o passado glorioso da África. Por que um investimento num projeto editorial, como viria a ser feito, mas bem mais tarde, pelo grupo Seleções Reader's Digest, ao contratar o escritor Alex Haley para pesquisar suas raízes na áfrica (O Gâmbia) e mostrar a saga de uma família afro-americana? Pois a África, por si mesma, emergente como reduto de jovens e orgulhosos soberanos como o Senegal, Gana, Quênia, Nigéria, Guiné, Congo, Zaire, Tanzãnia e tantos outros - ia mostrando aos poucos, mas com determinação, ao mundo, o que poderia fazer a modo próprio, livre de tão terrível tutela. Poderá haver, aqui, uma pequena quebra de cronologia no que estou narrando, mas, não posso deixar de registrar a imponente fotografia do primeiro embaixador africano junto à Nações Unidas. ele vestindo seu traje nativo, segurando um bastão de chefe tribal, lá em Nova York, no mais alto organismo internacional. Em verdade, sem saber, um predecessor, com seu exemplo, do Embaixador Young, do Estados Unidos, junto a ONU. exemplos, como este, com o passar dos anos foram tornando-se corriqueiros, mas impregnavam os jovens descendentes de africanos, como eu, do valor imenso daqueles homens que conseguiram quebrar tão poderosos grilhões, como aqueles que ligavam suas nações a tutores cujos interesses exclusivos eram os seus próprios. Os Estados Unidos, por sua condição de desenvolvimento, foi sempre o grande difusor do exemplo africano. A comunidade afro-americana, tão pujante naquele país, e com um poderio econômico e social invejáveis, fazia de tudo por difundir os sucessos que eram conseguidos na inquieta África, recém liberta. É difícil de dizer-se ou definir-se com precisão até que ponto os negros americanos impuseram seus propósitos, motivados pelo desejo isolado de integração na próspera sociedade americana - e, em que medida o exemplo africano inspirou-os a lutar por seus direitos. Quando a postura ereta e a determinação de, apenas, desempenhar papéis dignos, no cinema, marcavam o ator negro Sidney Poitier, ele servindo de exemplo para inúmeros jovens de minha geração - não sei até quando ele representava os negros americanos ou, em verdade, transmitia dignidade do africano. Quando via as posições radicais de Malcon X, ou as ponderadas de Martin Luther King, ambos, a seu modo, lutando pela valorização do negro americano, não sei diferenciar até que ponto ou de onde lhes veio o modelo. a verdade é que, a partir de um determinado momento - já nem se fale hoje em dia - passou a ser lugar comum encontrar-se no cinema e na televisão americana, a presença maciça dos negros americanos, desempenhando, em verdade, papéis concetâneos com o que se pode encontrar naquele país: generais, diplomatas, cientistas, profissionais liberais, etc. da mesma forma, tornava-se também difícil, face a onipresença americana em nossa sociedade, determinar até que ponto sofremos a benéfica influência, se diretamente da África, ou via Estados Unidos. recordo, estávamos em 1967. O deputado Carlos Santos, com grande impacto e estupefação, especialmente nas zonas de Caxias do Sul e São Leopoldo, assumia a presidência da Assembléia Legislativa do Estado. Ele um Léopold Senghor, por sua sensibilidade e humanismo; mas, também, um Nkrumah, por sua determinação. Pois logo após eleito, por imposição do cargo, tornava-se o primeiro Governador do Estado, descendente de africanos. E isto ocorria no mais europeu dos estados brasileiros. Por bondade de Carlos Santos eu assumi a chefia do seu Gabinete. No desempenho dessas funções é que me vi no Rio de Janeiro, a visitar Yaw Banful Turkson, embaixador de Gana no Brasil. Convidamo-lo a visitar o Estado. Ele veio e os jornais abriram largos espaços para mostrar a visita, pela primeira vez de um embaixador africano ao Rio Grande do Sul. Pessoas desacostumadas, paravam nas ruas para ver passar, naquele imenso automóvel, precedido de batedores da Polícia, uns pretos. Foi algo que chocou. Mas era, sobretudo, um grande exemplo que se dava a todos. Antes da chegada dos diplomatas - os novos africanos, os que vieram espontaneamente, ao contrário de seus ancestrais - pois antes, hotéis do Rio de Janeiro e outra capitais de Estado tinham o mau hábito de criar problemas, na tola presunção de que este é um país branco. Com sua chegada, tímida de início, mas cada vez mais intensa - a besta do preconceito foi aos poucos sendo empurrada para o seu canto mais inexpressivo, hotéis de segunda linha, pois os grandes tinham de atender ao interesse nacional, ou seja, mostrar um Brasil, verdadeiramente , sem este tipo de preconceito. Um Brasil, segundo seus dirigentes, de repente, orgulhoso de suas origens africanas. Nos dias de hoje tanto o Itamaraty viu-se obrigado a acolher estagiários africanos, em seu Instituto Rio Branco, quanto, mais espontaneamente, se pode ver - e eu já vi, nas embaixadas brasileiras no exterior, jovens em início de carreira que, anos atrás, não chegariam a tanto. Já encontrei em diversas repartições no exterior do Itamaraty mulatos como funcionários não diplomatas. Preconceitos, por não terem base na razão, lógica, tendem a se esboroarem, na medida em que as pessoas se tornam mais inteligentes, cultas e, mais abertas. Há preconceitos terríveis, como entre árabes e judeus; católicos e protestantes; brancos e pretos; em suma, entre seres humanos, por razões diversas. Mas, mesmo nos mais dramáticos exemplos de preconceito, a razão conseguindo falar mais alto, com eles extirpa. Acredito que o exemplo africano veio mais como uma grande e profunda cooperação para com a problemática brasileira, porque, verdade também seja dita, se deu concomitantemente ao avanço cultural da própria nação brasileira. De nada teria valido o magnífico exemplo da saga libertária africana, se os brasileiros não estivessem à altura de recolher o exemplo e, mais do isto, pô-lo em prática. E isto foi feito porque era o momento adequado. De nada valeria Martin Luther King haver sido distinguido com o Prêmio Nobel, se a mensagem se endereçasse, por exemplo, aos brasileiros da década de 40, quando descendentes africanos, aqui em Porto Alegre, recém começavam a escapar de verdadeiro s guetos como a Ilhota, a Colônia Africana, no Mont Serrat ou na zona em torno a Avenida Getúlio Vargas, no Menino Deus. O exemplo veio a se tornar efetivo dentro de um contexto geral, do qual participava a independência das milenares nações africanas, a emergência do Brasil como país buscando o desenvolvimento e o início da maturidade e tomada de consciência dos governantes brasileiros, um dos quais teve a dignidade, e o termo que me ocorre é este, de nomear, exatamente para Gana, o Dr. Raimundo de Souza Dantas, aqui presente, nesta noite, como primeiro embaixador descendente de africanos. E, dentro desse contexto geral é de dizer que, coerente com toda a minha experiência anterior, considero de imensa valia o exemplo dado pelos africanos. especialmente se se considerar o fato de que eu próprio experimentei o progresso a partir de uma série de exemplos. E o exemplo africano, porque positivo, deitou raízes profundas na sociedade brasileira em geral. Acho que todos nós, os brasileiros, devemos ser abertos o bastante para, na razão em que avaliamos o exemplo africano, consigamos manter presente a medida da cooperação de outros povos que para aqui vieram. Não creio que hoje em dia se deva radicalizar posições, quando o momento é de compreensão. Se entendo que o preconceito é fruto mais da ignorância, da desinformação, do que da razão, lógica ou inteligência, julgo que ao inaltecermos, assim como estamos fazendo, neste momento, a cooperação africana, com seu exemplo, na moderna sociedade brasileira, devemos ser capazes de, no devido momento, reunirmo-nos e prestrar idêntica homenagem a outros povos. E, de minha parte, até mesmo por uma questão de bom senso, não tenho porque, mesmo conhecedor agora da verdadeira história africana, renegar meus ancestrais ibéricos, apenas porque a cor dominante de minha pele é a escura. Somos, no Brasil, todos sabem, uma mistura de sangue e estamos, cada dia, mais próximos de alcançarmos a um determinado padrão étnico brasileiro. este padrão já toma contornos, quando se vê a maioria das pessoas que habitam do Rio de Janeiro para cima. Ali está presente, não apenas o sangue africano, da contribuição dos escravos que para aqui foram trazidos, mas, também, através dos portugueses, eles mesmos pesadamente infiltrados pelo sangue mouro. Sentados neste plenário, os Senhores Embaixadores africanos, estes representando culturas milenares, reconheço neles, com orgulho, assim como em meu ancestral ibérico, lídimos representantes das correntes humanas, que, compulsória ou espontaneamente, vieram para nosso país e que, com seu sangue, trabalho e experiência anterior, ergueram as bases da civilização brasileira. E mais, vejo nos senhores Embaixadores, também o retrato daqueles que , agora, séculos passados, outra vez fazem-se presentes à cena, desta feita com seu exemplo de força e determinação, novamente a cooperar, verdadeiramente, para um melhor relacionamento entre nós brasileiros, claros ou escuros.

Para encerrar, peço licença aos presentes para uma breve saudação sob forma de resumo do que disse, aos nossos convidados especiais:

Cette conférence que je vais conclure, a été encore un reportage contenant des passages de ma propre vie. J'ai parlé de l'effort que J'ai dû faire, au long d'une bonne partie de ma vie, pour trouver, en des temps difficiles, quand les pays africains lutaient pour leur indépendence, des raisons d'orgueil pour ma descendance africaine. J'ai dit aux Messieurs présents, qu'en une époque d'obuscurantisme à propos des valeurs historiques de l'Afrique milénaire, je suis arrivé, avec la lecture d'ecrivains amércains et africains, à lever le rideau et trouver des raisons en abondance pour sentir orgueil, non seulement de mon ancête ibérien, mais aussi des africains. Je conclu, Messieurs les Ambassadors, pour affirmer que nous devons, nous, brésiliens noirs et blancs, spécialment des métisses, parce que représentant la majorité de la nacionalité, l'extirpation de préjugés stupides, grace à l'example des homes que le Sénégal, le Ghana, le Nigeria, Le Zaire et d'autres pays, ont envoyés aux foruns internationaux, ou à notre pays, comme diplomates d'ébaine. Le Brésil, comme Gilberto Freyre l'a si bien dit, a une dette irrachetable avec les nègres qui sont venus, à l'aube de la nationalité, ici travailler, contraints, et qui ont aidés à rendre ce Brésil si particulier. La lecture de plusieurs socioloques brésiliens, saura démontrer aux brésiliens ou aux étrangers, que, sur le plan intellectuel, les brésiliens n'ont jamais nié la valeur du travail du nègre et de ses descendants. Mais, la simple constatation du comportement de la socièté brésilienne dans ce domaine, saura prouver plus: que l'Afrique este revenue, cette fois-ci livre et spontanée, pour enseigneur aux brésiliens et aux américains, bref à tous ses descendants, éparpillés dans le monde entier, de quoi elle est capable, quand elle agit par ses propres moyens. Et j'ai receuilli, Messieurs les Ambassadeurs, avec satisfaction redouble, ma constatation personelle, de l'orgueil avec lequel dans vos pays d'origine, nous sommes reçus, nous aussi descendant d'africains. Acceuillis comme des enfants qui retournent à la maison paternelle. Alors, s'il en est aussi, le moment se fait oportum. Nous recevons deux fois l'heureuse cooperation africain. Ainsi, que notre expérience culturelle, technique ou scientifique serve de coopération pour le désir de developpement de vos pays, comme une espèce de retribuition brésilienne.
Merci beaucoup.

The conference I am to conclude, was more a news report with drops of my life. I talk about the strugle I did, during a long period of my life, to find in hard times, when yours countries were fighting for their independence, reasons, of proud ness of my african descent. I said to the whole room, that in a time of obscurantism about the historical worth of the millenarian Africa, I succeded, with the lecture of americans and african writers, to draw the courtain, and find reasons to be pride, not only of my iberic ancestral, but, also, of the african one. I am concluding, Sirs, by affirming, that we owe, we brasilians, blacks and whites, and most specially the mulattos, being the majority of the nacionality, the extirpation of stupids prejudices, to men that Senegal, Ghana, Nigeria, Zaire and others countries, sent to the international forums, ot to our Country, as ebony diplomats. Brasil, Gilberto Freyre had already said it so well, has an unredeemable debt with the negros, who came, in the early times of the nationality, to work here, compulsorily and help to make this Brasil so peculiar. The lecutre of numerous brazilians sociologists, has to show to brazilians and foreigners that, in the intelectual domain, the brazilians have never reject the value of the work of the negro and his descendants. But, the simple evidence of the brazilian society behavour, in this domain, will show more: that Africa is black, this time free and spontaneous, to show to brazilians, americans, in short to all its descendants dispersed in the world, what they are able to do, when getting by their own means. And, Sirs, I collected with redoubled satisfaction my own observation of the pride, that in your countries of origin, we also african descendants, are received. They use to welcome us like sons returning to the father home. Well, then it is the proper moment. We receive two times the blessed african co-operation; so, let our cultural, technic and scientific experience, be the co-operation for the wished development of yours countries, as a kind of brazilian retribuition.
Thank you very much.