HISTÓRIAS DE UM CAIXEIRO VIAJANTE

UM DECÊNIO DE ÁFRICA

José Luiz P. da Costa

À Feira de Dacar.
Pavilhão do Brasil em Dacar, 1974
Grupo da Câmara de Comércio Afro-brasileira
Dez anos já se passaram, desde a primeira vez em que estive na África. Foi em Dacar, capital do Senegal - outrora a capital da África Ocidental Francesa. Fui participar da I FIDAK, Ferira Internacional de Dacar. Era a primeira ofensiva, em termos empresariais, do Brasil para conseguir uma fatia do mercado importador africano. Éramos jovens de São Paulo e de Porto Alegre, na maioria, sob a liderança da Câmara Afro-brasileira, de São Paulo. No grupo dois bons amigos que já partiram pela estrada sem volta: o Carlos Marcelino, filho do deputado Carlos Santos e Ronaldo Baptista, um paulista dinâmico, que a malária o imolou, no vigor dos 42 anos de idade. O Baptista - com quem trabalhei por duas semanas, arregimentando firmas do Sul, para participarem da feira, - cheio de entusiasmo, me avisava: Gaúcho, este é o último trem que está partindo para a África, quem não embarcar agora não pega outro! Não sei se era o último trem; de qualquer forma tenho a convicção de não haver perdido. Perdi, sim, meu primeiro vôo para a áfrica, o que não chegou a se constituir em algo irreparável, como se poderá ver adiante. Excitado e nervoso, pois neófito em viagens internacionais, confundi a hora de estar no aeroporto com a hora efetiva da partida do avião. Cheguei no velho Galeão para o horário de partida (estava até uns 20 minutos adiantado) e fui brindado com a primeira e grande lição dos suíços, gente que passei a admirar, em dezenas de viagens anuais, em seus aviões: a Swissair não atrasa e não faz concessões, tudo para manter seus vôos sempre no horário. Não adiantou lamúrias e apelos. o Vôo estava "fechado", como dizem no jargão aviatório, e não o iriam abrir para quem quer que fosse. E não abriram. Aliás, muitos anos após, em 1982, meu companheiro Fernando Barros, mereceu o mesmo tratamento no aeroporto de Nairobi, no Quênia. Ficou a desfrutar de um jantar no restaurante do Hotel Intercontinental e, quando chegou ao aeroporto Jomo Kenyatha, o vôo estava fechado. Apelou ao pessoal da empresa suíça, alegando sua condição de passageiro especial, portador de cartão Travel Club, distinção que a Swissair dá para seus bons clientes. Então, o funcionário do aeroporto tripudiou: se o senhor é STC - Swissair Travel Club - deve saber melhor do que os outros, como trabalhamos. O Fernando viajou, mas por outra companhia aérea. Pois na noite de 30 de novembro de 1974, de crista caída, não tinha absorvido a extensão de minha falha. Perdera o avião e o próximo vôo daquela empresa só ocorreria daí a dois dias. O que fazer? Enquanto degustava o meu insucesso, eis que apareceu o Carlos Marcelino. Já havíamos nos despedido, para um reencontro na manhã seguinte, no aeroporto Yof, em Dacar, posto que viajaríamos em companhias diferentes. Ele iria pela Air France. Meu avião sairia duas horas antes do dele. Ao ver-me sentado ali ficou mais surpreso do que espantado: isto, em verdade, ele ficou quando contei-lhe haver perdido o vôo. Afinal, eu era o que falava Inglês e arranhava, mal, o Francês. Desolados, os dois, ouvimos uma voz que não conhecíamos e que atirava, naquele instante, um bote salva-vidas. O Sr. Stegma , um dos gerentes, ainda hoje, da Swissair no Galeão, disse: pergunte na Air France se eles têm lugar no vôo para Paris, com escala em Dacar. Se derem o OK então eu endosso o bilhete. Um pequeno gesto espontâneo do funcionário, que tocaria o atônito passageiro e o tornaria cativo da sua empresa. Fui ligeiro ao balcão da companhia francesa. Havia lugar. O bilhete foi endossado. Embarcamos na Air France e chegamos em Dacar a bordo de um moderno Boeing 747, O Jumbo. Já em Dacar, no Hotel de La Paix, minha inquietude empurrou-me para o local onde estava se iniciando a Feira. Nem a noite mal dormida, no gigantesco avião, nem as dificuldades para se ver livre das formalidades da chegada, conseguiram reter-me no quarto para repouso. Um banho e rua. O Marcelino ficou e acertamos que eu fecharia a porta por fora e deixaria a chave de nosso quarto na recepção do hotel. Bem mais tarde, à noite, ele me contou os momentos amargos que viveu, tentando sair do quarto. Munido de um dicionário de bolso encontrou a palavra "chave" (clef), mas não pode armar uma frase, de forma que os porteiros entendessem que ele estava preso no quarto e precisava da chave para sair. Um de meus avós, o "seu" Costa, fora dona de um armazém de secos e molhados, nas imediações da Igreja São Pedro, nos primeiros anos deste século. Guardamos, em família, um retrato onde ele aparece, com vasto bigode, atrás de um balcão e em frente a prateleiras com bebidas, fumo em rolo, sacos de cereais, etc. Não sei exatamente quando, mas num tempo qualquer do passado ele largou a Lusitânia e, cheio de sonhos e esperanças, rumou para o Brasil. Caiu em Porto Alegre e nos braços de uma bela mulata, minha avó materna. O outro avô, ou seu pai - quem sabe seu avô - não escolheu o caminho da vinda. Foi trazido na "marra", dum ponto qualquer da África (Costa dos Escravos? Quem sabe Dahome? ou será Angola? Ou o vasto Sudão? num barco infecto, como as pessoas agora imaginam os navios negreiros, depois do filme Raízes. Os sonhos desse meu avô, por mais ousados que fossem, jamais tiveram as cores da esperança, da aventura, da ansiedade, de meu outro avô lusitano. Pois, ao pisar no solo de Senegal, em Dacar, eu repetia, ao inverso, o caminho de um e desagravava, ainda que na simbologia das emoções, padecimento do outro. A grande diferença, de qualquer modo, em ambos os casos, entre eles e eu, é de que eles vieram e ficaram. Eu fui, circulei, passei, me detive, ao longo de quase uma centena de viagens. Estive no Senegal, Gâmbia, Guinés (Conacri e Bissau), Cabo Verde, Serra Leoa, Togo, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Quênia, Zâmbia, Zimbabue e Moçambique. Histórias recolhidas ao longo desse decênio, recordações de aventuras, desventuras, momentos gratificantes e os de pesar, constituem-se do buquê que pretendo oferecer aos leitores.