Ensaio convidado

 

 

A Obra Civilizatória

Suely Carneiro[1]

 

Inúmeras análises tentam ex­plicar o comportamento do eleito­rado nas eleições presidenciais de 2006. Em muitas delas emergem ou são insuflados conflitos reais ou preconceitos de natureza regional, de raça e classe, sobretudo quan­do enfocam as intenções de voto no presidente Lula.

Um exemplo lapidar está na análise feita pelo jornal "0 Estado de S. Paulo" dos resultados de pesquisa encomendada ao Ibope para aferir o nível de tolerância da população brasileira à corrupção, tendo sido divulgados os seguin­tes resultados, conforme o Estadão: "No Nordeste, 10% dos eleitores declaram que votariam em político acusado de corrupção (...) No Sul e no Sudeste, esses índices são de 6% e 7%, respecti­vamente". Mas o melhor vem ago­ra: "Os que se autodeclaram bran­cos são mais implacáveis com a ética: 88% não votariam num cor­rupto; os que se autodeclaram pardos cobram menos e 85% não votariam em indiciados por corrupção; mas os que se autodeclaram pretos são os menos rígidos com a ética: só 82% negam o voto a corruptos".

Em comentário sobre essa pesquisa, o jornalista Franklin Martins, além de apontar que os dados utilizados não autorizam as conclusões deles extraídas, subli­nha que "está claro que o jornal tinha uma tese" que cabia à pes­quisa legitimar, qual seja: a de que negros em geral, e nordesti­nos em particular, são menos exi­gentes em relação à ética do que, respectivamente, brancos e su­listas.

Mas não é uma tese nova no que diz respeito ao Estadão, so­bretudo em relação aos negros. Ela é consistente com outras que vêm sendo defendidas por esse jornal desde 1929, quando então Júlio Mesquita Filho já afirmava em editorais que: "as portas das sen­zalas abertas em 88 haviam per­mitido que se transformassem em cidadãos como os demais deze­nas e dezenas de milhares de ho­mens vindos da África e que, infiltrando-se no organismo frágil . da coletividade paulista, iriam não somente retardar, mas pratica­mente entravar o nosso desenvol­vimento cultural."

Ou mais ainda, ao rejeitar a abertura da imigração para negros norte-americanos disse ele: "não é desejável a contribuição dos pre­tos americanos para o caldeamento de raças no Brasil. Um contingen­te preto nesse momento seria mais nocivo que útil à obra da civiliza­ção em que estamos empenhados." (08/06/1929). Resta a "0 Estado de S. Paulo" explicar os resulta­dos dessa obra na qual ele tanto se empenhou e que tinha a bran­cura como um dos seus principais pilares.

As elites brancas construí­ram um mundo para si no Brasil à custa de muitas perversões, em especial a de alijar da cidadania negros e pobres. No entanto, o embranquecimento das estrutu­ras de poder da sociedade brasi­leira não resultou na criação da­quilo que eles imaginavam pu­desse ser a Europa nos trópicos. Pelo contrário, tem-se uma elite medíocre, prisioneira de conhe­cida sabujice em relação aos EUA e à Europa, que reverenciam com humildade bovina. Pior, no rei­no encantado que organizaram para si, só há lugar para a auto­complacência com a própria in­competência e descompromisso com o país. 0 problema é sem­pre o povo.

A crise política e os escânda­los que se sucedem revelam que parece não haver um ramo de ati­vidade no país que não esteja atra­vessado, desde sempre, por práti­cas de corrupção, compadrio, pro­tecionismo, lançando sérias dúvi­das sobre a forma pela qual as for­tunas são construídas no Brasil, quando elas não advêm dos talen­tos individuais consagrados como o de artistas, desportistas, escri­tores etc... A cada nova quadrilha presa das que saqueiam os cofres públicos fico esperando para ver uma cara preta. Nada. Esse é o pri­meiro saldo da obra civilizatória.

Há outros aspectos mas pou­co é o espaço para arrolar todos. A Universidade de São Paulo, por exemplo, criada pelos Mesquitas para reproduzir as classes domi­nantes, tem absoluta maioria branca nos seus corpos docente e discente mas não figura entre as 100 universidades mais importan­tes do mundo, estando abaixo, inclusive, de países de menor im­portância econômica e geopolítica do que o Brasil; neles proliferam prêmios Nobel, invenções tecnológicas e estratégias inova­doras de desenvolvimento econô­mico e social de reconhecimento internacional. Aliás é o preto Mil­ton Santos o único brasileiro a con­quistar um prêmio internacional de grande envergadura o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, Paris, 1994 - mais conheci­do como o Prêmio Nobel da Geo­grafia.

A performance dos alunos da elite brasileira é também constran­gedora: "apenas 21% dos alunos da elite brasileira conseguiram notas que os colocavam nos dois níveis mais avançados de apren­dizado, o que indica que conse­guem ler e interpretar textos e grá­ficos com níveis mais avançados de complexidade. 0 resultado é mui­to inferior ao encontrado entre as elites dos outros sete países pesquisados: França (57%), Coréia do Sul (55%), Estados Unidos (53%), Portugal (48%), Espanha (46%), Rússia (33%) e México (27%)."

Clóvis Rossi, em artigo na "Folha de S. Paulo", afirmou que os únicos profissionais brasileiros respeitados internacionalmente são os nossos jogadores de fute­bol, aos quais se atribui inegável expertise. São eles, na maioria, negros. Não é à toa portanto que o ministro Furlan constata que "um país precisa ter marcas in­ternacionais, que sejam reconhe­cidas e desejadas em qualquer parte do planeta. (...) Quando che­go a um país, a primeira pergun­ta que faço é qual a imagem que eles têm do Brasil. A resposta é sempre a mesma: samba, café e Pelé."

Esse é o resultado final da obra civilizatória. Adorei!

 



[1] Doutora em Filosofia da Educação pela Universidade São Paulo e diretora do Geledés – Instituto da Mulher Negra. Publicado no jornal Irohin, número 18, agosto-setembro 2006.