brasileiros ajudam moçambique a construir sua INDEPENDÊNCIA [1]

 

 

Após haver participado, em setembro do ano passado, de uma feira internacional na capital de Moçambique, agora em janeiro voltei á capital daquele país, a Maputo de hoje, antiga Lourenço Marques. A cidade, que abriga o governo de uma república popular, socialista, também é diferente daquela Lourenço Marques que servia de sede à capital de uma próspera colônia portuguesa. Era o reduto de férias da elite sul-africana, que de Johannesburg podia deslocar-se de avião, em vôos de apenas 45 minutos; ou em passeios de barcos, na costa do Oceano Índico. Uma cidade européia, em plena África Austral, onde os nativos eram discriminados como se dali não fossem.

Os viajantes internacionais, aqueles que conheceram Maputo como Lourenço Marques, se voltarem lá por estes dias, haverão de se decepcionar profundamente: não há mais vida noturna, a prostituição sumiu, os negros têm de ser tratados com respeito, como seres humanos e, enfim, como verdadeiros donos da terra. Não encontrarão engraxates portugueses, porteiros lusitanos, balconistas ibéricos, policiais e demais servidores públicos vindos de ultramar. Hoje são todos nativos; experimentam dificuldades, afinal estão há apenas quatro anos tocando quase sozinhos o barco. A cidade que foi construída para uma vida de alta qualidade, em termos ocidentais, com largas avenidas; sistemas de água e esgoto modernos; eletricidade pública e domiciliar abundante, acolhe o moçambicano, que na sua maioria, há quatro anos, antes da independência, não estava preparado para tanto.

Em Maputo, hoje, há a dificuldade para manter funcionando, com normalidade, todo o aparato tecnológico montado pelos portugueses e sul-africanos, para o seu desfrute. Porém, aos poucos — com o auxílio de “cooperantes”, que são portugueses, brasileiros, cubanos, russos e técnicos de outras nacionalidades, pessoas que, pagas por organismos internacionais, lá estão para ensinar a ainda perplexos moçambicanos, como operar e manter o parque tecnológico à sua disposição — vão ganhando desenvoltura.

chegando a maputo

Para ingressar-se na República Popular de Moçambique é necessário obter, por antecipação, licença do Governo, num processo ainda lento. Assim sucede, porque por um lado, aquele país ainda não tem uma representação diplomática em Brasília e por outro procura defender-se, como pode, de indesejáveis aventureiros internacionais. Quando chegamos no aeroporto de Maputo, o economista Fernando Barros, do Grupo Cordeiro e o engenheiro Davino Tomazoni, do Centro Tecnológico do Couro, Calçados e Afins, de Novo Hamburgo e eu — a autorização para o ingresso já se encontrava lá. Éramos convidados daquele país para finalizar discussões sobre a implantação de fábricas em Moçambique para a produção de sapatos e artigos de cerâmica. Assim que, logo após cumpridas algumas formalidades, nos deparamos com duas jovens, Manoela e Hilda, que se apresentaram como funcionarias do Ministério da Indústria e que nos haviam identificado pelo sotaque. Explicaram que, quando os passageiros do avião chegaram ao saguão, onde apanham-se as malas, elas acercavam-se das pessoas ou grupos, para ouvir como falavam. Ao se chegarem a nós três, logo nos identificaram. O português falado em Moçambique é parecido com o de Portugal.

ainda um exemplo

Nesta vida vive-se muito de exemplo; da influência de outras pessoas ou povos. Pois para muitos moçambicanos, apesar de nossas próprias mazelas, nos constituímos em exemplo de uma comunidade que, tendo sido colônia também, há longo tempo, conseguiu superar seus problemas e vencer. Afinal, diz-se, a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa. Muitas são as raízes desse comportamento, traduzida na admiração para com o Brasil. Mas, dentre as raízes há de se colocar com destaque a penetração dos meios de comunicação brasileiros, via música e esporte, lá em Moçambique, no Oceano Índico.

Quase sempre viajo com um rádio de boa sensibilidade, com o qual procuro, nos períodos afastado do Brasil, saber como vão as coisas em casa. Pois, não fugindo à regra, também em Maputo, nas quietas madrugadas, sem ruídos de qualquer ordem, sintonizava a Guaíba, em 25 metros, ondas curtas. Mas, aos poucos fiquei sabendo que, naquele país eu não era uma exceção. O funcionário da embaixada do Brasil, encarregado da área de comunicação, nos informava: ouvimos a Guaíba todos os dias, é a que melhor chega aqui, das brasileiras. Depois fiquei sabendo que, sintonizar a Guaíba, a Jornal do Comércio, de Recife, ou a Nacional, do Rio, são hábitos cultivados há muito em Moçambique.

E isto explica o fato de, durante o dia, em cada cinco músicas tocadas no rádio, seguramente uma ser brasileira. Lá, estão, no cotidiano dos moçambicanos, na sua Rádio Nacional Jair Rodrigues, Elza Soares, Clara Nunes, Roberto Carlos e muitos outros cantores da atualidade. Também explica o fato de os livreiros, que por problemas de escassez de divisas no país não poderem importar tantos livros, quanto poderiam vender, lastimarem-se de não poder atender os pedidos de autores brasileiros.

Nossos meios de comunicação criam uma expectativa entre os moçambicanos, já que divulgam constantemente, através das emissoras que lá são captadas, os lançamentos musicais e editoriais. Também a promoção de obras governamentais deve pesar no conceito que fazem do Brasil, eis que, a partir desse tipo de informação, parece que vivemos sem problemas. De qualquer forma, apesar da péssima imagem que tínhamos, ao tempo em que os soldados de Somora Machel, o atual presidente do país, lutavam no campo contra as tropas portuguesas, com a complacência brasileira — hoje, pelo trabalho do embaixador Ítalo Zappa, nosso representante em Moçambique, a imagem brasileira torna-se, na área oficial, melhor.

 

cidade vazia

Maputo hoje é uma cidade tranqüila. Os manuais de estatística registram, para Lourenço Marques, uma população em torno de 700 mil habitantes. Havia, assim, uma estrutura muito boa para este volume de pessoas, muitos de uma classe média consumista, cujas marcas estão em modernos magazines e numerosas lojas nas avenidas que agora têm nomes como Karl Marx, Lenine, Mao-Tse-Tung, Keneth Kaunda, Samora Machel, Agostinho Neto, etc., mas que hoje apresentam prateleiras vazias. Maputo hoje não tem 500 mil habitantes. Não há ricos. Ninguém tem mais de um imóvel. Ninguém explora os meios de produção. O Estado está presente, intervindo aqui e ali.

Maputo, praticamente, não tem táxis. Para atender toda a cidade existe uma frota de 100 rádio táxis, muitos dos quais já estão imobilizados por falta de peças de reposição. Porém, o transporte coletivo dá-se com eficiência, através de muitos e modernos ônibus sanfonados (chamados machimbombos). Foi uma opção governamental: a preferência foi dada para o transporte de massas. Quando houver recursos e a situação melhorar, então serão postos em circulação mais táxis, que servem apenas ao transporte individual.

Sem ser uma tirada retórica, pode-se dizer que uma avenida de Maputo, onde os carros circulam pela mão esquerda, como em Londres, pode-se atravessar de olhos fechados. É que, com a fuga em massa de portugueses, ao fim da guerra de independência, eles levaram seus veículos. A trepidante Lourenço Marques cedeu lugar a uma bucólica e organizada Maputo, com altos padrões de segurança individual.

Dizia-me um brasileiro lá residindo, como diretor de um programa da ONU: Maputo pode ter piorado para quem ficou, da classe média alta, pois não é fácil conseguir sabonete, carne, artigos de uso pessoal requintados — porém, para o povão, aquele que nem podia entrar na cidade ao tempo da colônia, para este melhorou, porque mesmo com dificuldades, ele tem disponível o básico para seu sustento, o que não tinha então.

brasil presente

Desacreditado, de início, hoje o Brasil está adquirindo seu lugar na comunidade oficial do país. Do trabalho pertinente de Ítalo Zappa, hoje os frutos começam, a surgir. O Brasil está investindo bastante lá; concedeu uma linha de crédito de 100 milhões de dólares, para a venda de maquinaria e tecnologia brasileira para Moçambique. Empresários brasileiros integram-se à paisagem do país, o mesmo ocorrendo com técnicos que para lá são deslocados, para treinar pessoal.

Numa conversa com o advogado Francisco José Pereira, encarregado do Programa Mundial de Alimentos, em Moçambique, este dizia-me que o herdeiro natural, na relação colônia e colonizado, naquele país, não será Portugal, senão que o Brasil. Falando a mesma língua, com laços culturais estreitos, o Brasil, mais do que Portugal, está em condições de transferir toda a tecnologia que desenvolveu nos mais diversos campos. Não se trata de uma questão de simpatia. Trata-se de uma questão real e de ordem prática: Moçambique quer se industrializar e o parceiro que aparece com identidade total é mais o Brasil do que Portugal, ao contrário do que ocorreu em outras regiões da África, onde os herdeiros naturais foram, respectivamente, ingleses e franceses.

Outro brasileiro, o economista Carlos Alberto Goulart, que trabalha na SUDESUL, mas que se encontra à disposição da Agência de Desenvolvimento Industrial, da ONU, em Maputo, entende que, verdadeiramente isto deverá ocorrer. Mas é importante que outros brasileiros, não apenas Ítalo Zappa, passem a olhar com mais amor para Moçambique e Angola, conhecendo bem esses países, para que, num ato de mútuo entendimento, possa o Brasil oferecer e os países lusófonos da África receberem nossas propostas, o que enfim haverá de representar, sim, vantagem, para todos.

Nas discussões que mantivemos em Maputo, especialmente quanto aos projetos fabris de sapatos e cerâmicas, uma vantagem sempre foi enfatizada: os jovens moçambicanos que serão enviados ao Brasil, para aprender as técnicas de sapato e cerâmica, chegarão num dia e no outro já estarão assistindo aulas, pois inexiste a barreira da língua. E somente sabendo a força que os países do Leste europeu fazem para estar presentes, com suas máquinas e tecnologia, em países novos como Moçambique e Angola, é que se compreenderá a grande vantagem que significa falarmos a mesma língua. Um projeto com cooperação da Tchecoslováquia representará, pelo menos para os jovens africanos, um mínimo de seis meses para aprendizado de rudimentos da língua daquele país europeu. A qualidade da informação jamais será a mesma; não há competição neste campo. Ao lado disto há o clima. Nossos equipamentos são projetados para operar em clima idêntico ao de Moçambique ou Angola, o que não ocorre com os da Hungria ou Rússia.

Foram poucos minutos, é verdade, mas valeu a impressão, quando estive com Samora Machel, o presidente de Moçambique. Foi bastante para, mesmo dentro do respeito devido à dignidade do seu cargo, sentir o calor humano, uma certa admiração pelo país que oferecia a ele cooperação para aumentar o número de pessoas calçadas na sua terra. Os dois encontros com o Ministro da Indústria e Energia, Luiz Carrilho, fizeram bem claros os pensamentos atuais da alta administração moçambicana para com o Brasil. E estes pensamentos são de respeito e de admiração, de portas abertas para uma efetiva cooperação entre os dois países.


 

 

GALERIA DE FOTOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Correio do Povo, 24 de fevereiro de 1980, p. 44.